Adriana Buzelin

e a Tendência Inclusiva

 

Criadora e editora chefe da revista digital Tendência Inclusiva, Adriana é amante das letras e das artes. Como escultora, ganhou Diploma de Honra ao mérito pela Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte - MG com sua obra denominada Favela. Retomou sua vida após um acidente que a deixou tetraplégica estudando, trabalhando, rompendo preconceitos e quebrando paradigmas. Movida a desafios é a primeira cadeirante tetraplégica a ser registrada em mergulho acessível pela HSA/Internacional e a primeira modelo inclusivo agenciada no estado de Minas Gerais. Atua como colunista colaboradora em revistas e sites no segmento da inclusão, aceitação das diferenças e diversidade. Uma mulher guerreira, visionária e com uma vontade ímpar de ajudar o próximo seja com palavras ou ações. Adriana encara de frente a batalha pela inclusão social.

Foto: Amira Hissa

Beauty: Alissa Hissa

 

Adriana Buzelin é a criadora e Editora Chefe da revista digital Tendência Inclusiva. Cursou Relações Públicas, Produção Editorial e Design Gráfico. Era modelo publicitária antes de se acidentar e hoje atua como modelo inclusivo do casting da agência Kica de Castro. Palestrante motivacional aborda temas relacionados à moda inclusiva. Colunista colaboradora de algumas revistas do segmento, dentre elas a Revista Reação onde fala sobre esportes e aventuras radicais adaptadas e Site DasPlus onde fala sobre moda, diferenças e diversidade.


Também atua coordenadora da ONG Essas Mulheres, que luta contra a violência contra a mulher no estado de Minas Gerais, sendo responsável pela identidade visual e site da ONG.


É a primeira mergulhadora tetraplégica mineira registrada pela HSA. Com vários cursos relacionados às artes plásticas e história da arte, foi premiada com diploma de honra ao mérito pela Câmara dos Vereadores através de Silvinho Resende com sua obra em cerâmica denominada Favela.


Com grande vontade de abordar temas relevantes como inclusão, diversidade, autoestima, saúde, igualdade, educação, artes e outros assuntos que levem ao questionamento e a aceitação do universo diverso propiciando bem estar dentro da pluralidade em que vivemos, surgiu a ideia de criar a revista digital Tendência Inclusiva.

 

Nesta edição de aniversário de 1 ano de nossa revista a entrevista é com ela, nossa editora chefe Adriana Buzelin, que responde as perguntas de todos os colunistas colaboradores.

Como diz Adriana: "Na berlinda":

 

 

Angélica Falci: Como vc percebeu uma melhor organização emocional após o acidente? Quanto tempo para chegar numa estabilização? E quais os maiores desafios para realizar o encaixe emocional com a nova realidade?

 

Sempre digo que perdas, seja lá quais forem, não são fáceis.

 

No meu caso, a perda foi a dos movimentos do corpo todo devido a um acidente automobilístico que me deixou por um bom tempo sem movimentos do pescoço pra baixo. De repente, um dia, saí de casa andando e voltei após 7 meses em uma cadeira de rodas apresentando um quadro de tetraplegia incompleta nível C5/C6. E foi exatamente por ter sido uma lesão medular incompleta e por inúmeros outros fatores que voltei a movimentar, quase por completo, os membros superiores.

 

A parte mais difícil foi assimilar e aceitar este novo corpo com suas limitações. Eu já não conseguia mais comer sozinha, mudar de posição ou tomar banho sem a ajuda de terceiros. Eu já não conseguia mais frequentar os mesmos lugares que antes, nem usar os vestidos de antes, nem aqueles grandes saltos nas sandálias... eu comecei a observar olhares nunca vistos antes, comecei a entender a palavra preconceito e o significado do termo exclusão.

 

O fato é que um quadro de tetraplegia não afeta somente o andar e a falta dos movimentos completos nos braços e mãos, mas todo o corpo como a respiração, a circulação, o aparelho urinário e intestinal, a temperatura corporal, a sensibilidade nos membros, dentre tantos outras funções são afetadas também. Então, adaptar-se a esta essa situação é de fato doloroso física e psicologicamente.

Foi necessário o luto. Tive que chorar e lamentar pelo que perdi. Tive meu tempo para isto. Tive que começar a me enxergar neste novo corpo e entender as minhas limitações. Tive que reaprender a gostar de mim, tive que batalhar pela autoestima perdida, e isto foi extremamente difícil, ainda mais careca e sem movimentos. Tive que experimentar novas situações, tive que entender que o olhar do outro não poderia me deixar infeliz, tive que compreender que era necessário mudar valores e conceitos, tive que descobrir que muita coisa ainda era possível, tive que realmente redescobrir minha capacidade. Redescoberta minha real capacidade e minha autoestima tudo mudou. Um leque de opções se abriu para mim e eu consegui enxergar possibilidades.

 

Um amplo universo, cheio de motivos para viver, brilhou em minha frente e eu entendi o quanto eu ainda podia ser! Ser a mesma Adriana na essência, mas em novo formato. Continuei me cuidando física e emocionalmente. Voltei a estudar, a dirigir, a trabalhar, a namorar, a me divertir, a me expor, aceitar desafios, agradecer a ajuda da minha família e amigos, batalhar para que se orgulhassem de mim e, enfim voltar a ter a certeza de que viver é lindo e único.

 

Como diz uma frase de Carlos Drummond de Andrade com a qual me identifico muito: "A dor é inevitável mas o sofrimento é opcional ..."

Foto: Leandro Ribeiro

Paula Ferrari: Queria saber se vc teve alguma dificuldade com relação à sexualidade, após a lesão.

 

Apesar de ter uma vida sexual ativa antes de me acidentar, logo no início após o acidente, eu realmente não pensava nisto. Para mim a sexualidade ficou escondidinha dentro de uma caixinha bem guardada no fundinho de mim por alguns anos e só foi aberta quando eu entendi que para que gostassem de mim, antes de mais nada, era necessário eu mesma gostar muito de mim e me aceitar, além de vencer situações que me fizeram me afastar do sexo.

 

No hospital que fiquei enfrentei uma situação de séria de abuso. Quando fui fazer um exame dos rins, um dos Técnicos de raio-x resolveu tocar meus seios e eu não tinha nenhum movimento para baixo do pescoço. Estava careca devido aos machucados na cabeça e uma escara que levou dois anos para fechar. Mesmo vendo toda minha vulnerabilidade, este Técnico de raio-x me tocou dizendo: "É carequinha mas é uma mulher linda". Tive muito medo e gritei muito. Com meus gritos ele se assustou e me largou sozinha em um corredor, mas não deixou de me ameaçar.

Demorei a contar a minha família, mesmo com eles me visitando todos os dias no hospital, pois o rapaz me ameaçou e eu tinha realmente medo, porém meu pai observando meu silêncio percebeu que algo estava errado. Foi quando contei e a situação com o rapaz foi resolvida também com a colaboração da diretoria do hospital.

 

Meu noivo da época, talvez por falta de informação ou mesmo sensibilidade, também não compreendia o fato de que eu não estava psicologicamente e fisicamente bem para pensar em sexo. Ele acreditava que eu teria que ter relações sexuais com ele mesmo estando tão infeliz, e este foi um dos motivos de nossa ruptura.

 

Com o tempo, compreendi que também existia sexo após a lesão. Comecei a namorar, e isto foi acontecendo de forma natural. Readaptando aqui e ali. Redescobrindo que o prazer tem muitas formas.Hoje vivo com meu companheiro e neste relacionamento existe amor, companheirismo, respeito pelo corpo do outro, ingredientes que me fazem sentir desejada e vontade de estar com ele em toda sua plenitude. Com estes ingredientes o sexo fica livre e lindo para ser vivido..

 

Por isso quando fui convidada, pela presidente Márcia Gori da ONG Essas Mulheres (www.essasmulheres.org), para representar a ong no estado de Minas Gerais, me senti integrada e percebi a oportunidade de ajudar mulheres que são vítimas de violência. Muitas mulheres com deficiência sofrem agressões físicas e psicológicas de seus parceiros, cuidadores e familiares. Tudo isso é muito sério pois, muitas vezes, não reagem porque precisam dos cuidados destes agressores. Dependentes fisicamente, a lei não as ampara e nem dá oportunidades de se desvencilharem destas agressões. Não existem instituições que possam acolher essas mulheres quando elas conseguem reagir as agressões.

 

 

 

Retrato de Família: Adriana e Kleber

Chochó, Menina e Pipoca

Foto: Alessandra Duarte

Luciane Kadomoto: Após o acidente e a sua recuperação, você manteve os seus objetivos para fazer uma faculdade. Como foi o processo de vestibular e durante todo o curso? Você acha que aconteceu de fato o processo de acessibilidade e de inclusão? O que você acha que precisa melhorar a educação e capacitação profissional, no Brasil?

 

Após todo o processo de conquista de mim mesma comecei a perceber a necessidade de vivenciar novamente os estudos, afinal sempre fui amante do conhecimento e sentia falta dele.

 

Comecei fazendo cursos de Artes Plásticas, História da Arte e Escultura, já que minha mãe é Arte Terapeuta. Com isto, criei a "Favela", uma escultura que fala da exclusão, do preconceito e da não aceitação da sociedade daquilo que lhe parece feio e pobre. A "Favela", feita em argila, surgiu das idas com minha mãe a estes aglomerados. Eu com meus 12 anos já a acompanhava visitando seus alunos e me encantava com aqueles becos e labirintos, o que foi acentuado pela visão que eu tinha da janela do meu quarto do Aglomerado Alto Vera Cruz enquanto fazia horas de fisioterapia de pé em 'paralelas'. Com o tempo, fiz muitas exposições, uma delas no Gabinete do saudoso ex-prefeito de Belo Horizonte, Célio de Castro e assim fui premiada com o Diploma de Honra ao Mérito pela Câmara dos Vereadores, através de Silvinho Resende.

 

Um dia, andando pelo shopping, uma mocinha me perguntou com um panfleto nas mãos se eu gostaria de fazer vestibular para Biologia (ela fazia propaganda de uma Universidade) e foi aí que eu percebi que havia a possibilidade de voltar a estudar.

 

Como eu já havia cursado Relações Públicas nas Universidades Newton Paiva, bastava ir até a Faculdade Promove e ingressar em qualquer curso da área de comunicação. Escolhi Produção Editorial e lá me deparei, pela primeira vez, com o despreparo de muitos professores quando o assunto é um aluno inclusivo. E foi assim também no curso de Design Gráfico da Universidade Fumec, onde cursei minha terceira graduação.

Para muitos alunos e professores eu era invisível, e quando não conseguia participar de alguma atividade me pediam para ficar observando no "cantinho da sala". A curiosidade de ter um aluno inclusivo na sala de aula era grande. Faziam perguntas, muitas perguntas... desde como eu pegava no lápis para desenhar, a como eu fazia para ir aos banheiros não adaptados, ou seja, ir ao banheiro era impossível. Para muitos outros alunos e professores eu era como qualquer outro aluno apenas com particularidades diferentes dos demais. Estes sim eram solidários à falta de acessibilidade da escola. Tanto na Promove quanto na Fumec a administração tentava me encaixar para ter mais integração. Mudavam salas de andar, criavam mesas de desenho com as dimensões da minha cadeira de rodas e sempre se propunham a ajudar no que eu precisasse. Professores com posturas inclusivas me tratavam com igualdade e exigiam de mim o que exigiam de todos os demais alunos. Enfim, foi um grande aprendizado e sou muito grata a estes colegas e professores.

 

A meu ver, Luciane, a educação inclusiva no Brasil é ainda medíocre em informação e preparo dos professores. Poucos professores e escolas estão preparados para receber alunos com qualquer tipo de deficiência. A Lei Brasileira de Inclusão prevê mudanças em diversas áreas, como no trabalho e educação. A lei foi relatada pela deputada Mara Gabrilli, na Câmara dos Deputados, e pelo senador Romário, no Senado, e deu seis meses para instituições públicas e privadas se adaptarem antes de entrar oficialmente em vigor.

 

"Toda criança com deficiência têm direito a um ensino de qualidade e que atenda às suas necessidades". Tanto é assim que o tema também foi abordado na lei sancionada. Apesar de ser proibido por um decreto do ano passado, surgiram casos de escolas que cobravam uma taxa extra dos pais para o cuidado dos pequenos ao invés de investirem em profissionais capacitados, colocando a inclusão dos filhos nas mãos dos familiares.

 

 

Vamos aguardar janeiro de 2016 e exigir que essa lei seja cumprida!

 

Adriana Buzelin e sua obra Favela

Foto: Alessandra Duarte

Favela - cerâmica

Obra premiada pela Câmara dos Vereadores

de Minas Gerais

Close da obra Favela - cerâmica

Obra premiada pela Câmara dos Vereadores

de Minas Gerais

Sílvio Carvalho: Em meu texto de apresentação desta edição falei sobre o julgo que a pessoa com deficiência carrega no mercado de trabalho e nas relações em geral. Na sua opinião, o que mais podemos fazer para sairmos dessa margem imposta pela sociedade? Nós, que estamos no meio inclusivo, sabemos de nossas competências, porém isso não parece ser suficiente. Quais estratégia poderíamos usar para que a margem se rompa? A mim, muito me incomodam alguns clichês a que somos submetidos, como a constante necessidade de superação,- é como se nossa vida não fosse feita de diferentes momentos, bons ou ruins, - ou alguns dramas existenciais que as pessoas acham que vivemos constantemente.

 

Esta questão, a meu ver, tem diversas nuances que vão desde a falta de capacitação da pessoa com deficiência ao mercado de trabalho à dificuldade de abertura deste mesmo mercado para pessoas com deficiência realmente capacitadas.

 

Acredito que com o cumprimento da Lei Brasileira de Inclusão teremos mais adultos, daqui um tempo, profissionalizados e capacitados para estarem inseridos no mercado de trabalho. O mercado de trabalho deverá estar atento à capacitação de pessoas com deficiência, e isto deve ocorrer através da igualdade de oportunidades de acesso à educação. As crianças com deficiência de agora serão os adultos de amanhã, por isso o ensino tem que qualificá-las para terem uma profissão, assim como todas as crianças que frequentam escolas neste Brasil.

 

É certo que a educação no Brasil está muito aquém do que deveria ser. E é por conta disso que devemos reivindicar melhorias. Escola inclusiva é a base do mercado inclusivo.

 

E, ao contrário de muitos, sou a favor da Lei de Cotas. Ela é o primeiro passo para inserção das 'minorias' no mercado de trabalho. Sendo Lei, a contratação, no caso, de pessoas com deficiência se torna obrigatoriedade para empresas e, a partir do momento que esta inclusão se torne natural, não haverá mais necessidade das Leis de Cotas, pois já estaremos inseridos e seremos respeitados pela sociedade.

 

Não somos coitadinhos, longe disso, mas superamos obstáculos a cada dia e isto deve ser valorizado. Não é fácil ser deficiente no Brasil e lutar para mostrar capacidade e justiça. Não quero igualdade, quero justiça. A igualdade não respeita nossas particularidades mas a justiça sim.

 

 

Rodrigo Anunciato: Em sua visão, o que precisa mudar efetivamente no país para que os profissionais com deficiência deixem de ser vistos como integrantes de um cenário assistencialista e se tornem talentos para as organizações?

 

Rodrigo, acredito que o assistencialismo é um dos grandes males contra a inclusão social.

O fato de achar que pessoas com deficiência precisam de âmparo o tempo todo distorce a nossa luta para sermos enxergados como cidadãos comuns. Faz com que a conquista da condição e da capacidade de participação, a luta pela inclusão social e o exercício da cidadania adquiram conceitos errôneos.

 

Acredito que é informando que conseguiremos mostrar que essas diferenças não fazem menores ou inferiores pessoas com deficiência, negros e mulheres. É através da informação que quebramos paradigmas e temos oportunidades de construir uma sociedade mais inclusiva e justa, respeitando sempre a diversidade com suas particularidades.

 

Acho que ainda estamos caminhando a passos de formiga neste aspecto, porém já percebi algum crescimento de consciência desde o tempo que me acidentei para cá. Quanto mais informação, quanto mais formos vistos em cargos com evidência na sociedade, quanto mais tivermos poder de voz, mais iremos mostrar nossa capacitação. Para isso precisamos ousar, enfrentar e romper a discriminação e o preconceito levando conhecimento.

Essa é minha missão como colunista de revista do segmento, como Editora Chefe da Tendência Inclusiva, como formadora de opinião, como mulher com deficiência e como cidadã. Escrevo falando de inclusão, de aceitação e sugiro a reflexão. Dissemino informação e conhecimento. Me exponho para tentar conscientizar as pessoas, talvez até servir de exemplo de que, mesmo tendo uma deficiência, podemos muito mais do que a sociedade nos propõe.

Krishnaya: "Adriana, em 3 palavras:

Um aprendi. Um estou aprendendo. Um preciso aprender."

 

Aprendi: Ter Paciência

Um estou aprendendo: Ser mais compreensiva.

Um preciso aprender: Lidar com a Intolerância das pessoas

Foto: Alessandra Duarte

Kica de Castro: Adriana, você antes do acidente, já era modelo fotográfico, com  muitos trabalhos realizados, atuação ativa nesse mercado, uma profissional requisitada. Depois do acidente, as pessoas passaram olhar você com outros olhos, não teve mais trabalhos. Durante alguns anos, passou por mãos de vários fotógrafos, que viram que mesmo sendo uma tetra, não perdeu o charme e tão pouco o jeito em lidar com as objetivas fotográficas. Alguns querendo só vender books, outros só querendo aparecer. O que você acha que faltam nesses profissionais em não querer fazer a inclusão? Outra, no seu ponto de vista, por que a sociedade determinou que só existe um ÚNICO físico considerado padrão de beleza? 

 

Ingressei aos 16 anos na carreira de modelo publicitário, porém após o acidente as portas se fecharam para mim mesmo demonstrando capacidade de ainda figurar no mercado de trabalho da moda. O modelo com deficiência não se encaixa no estereótipo quase inatingível pela sociedade. O ser ou estar fora dos padrões é certamente dar por encerradas as possibilidades de atuar no mercado.

 

O que poucos sabem é que a profissão de modelo é realmente confundida apenas com glamour, não lembrando que, tanto para modelos com ou sem deficiência, é uma atividade que exige estudo, dedicação, empenho e muito profissionalismo. Um editorial de moda ou a gravação de um comercial exigem muitas horas em frente as câmeras, repetindo inúmeras vezes poses e cenas, escolhendo o melhor ângulo, refazendo falas, dentre tantos outros detalhes. São momentos exaustivos para uma foto "glamurosa" ou alguns segundos/minutos na tela.

 

Lidar com a pouca ética de alguns fotógrafos é algo muito complicado porque eles nem sempre estão dispostos a retratar uma modelo com deficiência com o intuito de inseri-la no mercado da moda. Muitos querem apenas ganhar dinheiro e outros, como você mesma disse, aparecer defendendo uma causa de inclusão com pouco embasamento. Todo este processo acaba dificultando a inserção correta do modelo inclusivo no mercado.

 

Acredito que toda pessoa possa ter um book pago para ser retratada, mas o que difere é o fato desta pessoa acabar sendo iludida por profissionais que só querem vender seu produto, no caso as fotografias. Por isso, falo tanto da ética deste mercado. A sinceridade é a base de tudo, pois é difícil achar uma agência séria, com profissionais capacitados e dispostos a promover esta inclusão.

 

O mais belona inclusão das diferenças no mercado da moda, a meu ver, é mostrar que o mundo é diverso, que existem todos os estilos de corpos, que a diversidade, ao contrário da padronização, é realmente bela. Com a aceitação destas diversidades surgem segmentos da moda que só têm a acrescentar como alguns exemplos: a moda inclusiva no segmento da pessoa com deficiência e no segmento plus size.

 

Como diz Joaquim Nabuco: 'A borboleta nos acha pesados, o pavão mal vestidos, o rouxinol considera-nos roucos e a águia tem para ela que somos uns rastejantes.'- Tudo na vida é relativo, inclusive a beleza.

 

Foto: Kica de Castro

Beauty: André Lima

Foto: Kica de Castro

Beauty: André Lima

 

André Lima: Você sempre foi uma mulher vaidosa. Depois do acidente, isso não mudou. Sempre teve preocupação de cuidar da aparência. Nunca deixou de lado esses cuidados. Por qual motivo acha que muitas pessoas que ficam deficiente deixam de cuidar da aparência?

 

Eu acredito que a vaidade é apenas mais uma característica de uma pessoa. Ela não está ligada ao fato de ser ou não deficiente, porém percebo que a grande maioria das pessoas com deficiência não se cuidam como deveriam porque acabam se acomodando com a dificuldade e os obstáculos de acessibilidade as roupas que enfrentamos.

 

Não é nada fácil para quem tem mobilidade reduzida ou nenhuma mobilidade encontrar roupas com designer bonito e confortável ao mesmo tempo. Encontrar roupas adequadas às particularidades de uma pessoa com um tipo específico de deficiência é muito difícil e, por conta disso, acredito que muitos acabam optando pela zona de conforto escolhendo apenas roupas mais esportivas. Longe de afirmar que roupas esportivas não tenham seu charme, mas também não é em qualquer lugar que você se sentirá bem vestido com moletons, tênis e chinelos.

 

A necessidade de um modelo universal de roupas que atenda a qualquer tipo de deficiência, ou a grande maioria delas, é algo necessário. Entrar em uma loja e encontrar roupas do tamanho 36 ao 54 é algo impossível. Encontrar provadores acessíveis também. Achar uma roupa para quem tem nanismo sem se sentir infantilizado, ter informações das peças em braille para quem é cego, encontrar calçados bonitos e com fáceis fechamentos para quem tem pouco movimento nas mãos, dentre tantos outros obstáculos, nos faz desanimar.

 

Poder ter meu próprio estilo e me sentir bela além de confortável me faz única e inserida em uma sociedade como consumidora. Nós, 46 milhões de pessoas com deficiência, somos consumidores em potencial, basta nos dar acessibilidade e oportunidade de nos vestir sem tantas limitações do mercado.

Foto: Amira Hissa

Beauty: Alissa Hissa

 

Foto: Leandro Ribeiro

 

Para mim, beleza e deficiência não deveriam ser termos opostos.

Frase que Kica de Castro, dona da única agência de modelos com algum tipo de deficiência do Brasil,

sempre cita e eu assino embaixo.

Rafa Coelho: Adriana, te farei a pergunta que você mesma julgou das candidatas no Miss Minas Gerais Plus Size Oficial: que diferença faz para você ter o corpo fora do padrão aceito socialmente?

 

Rafa, você acredita que eu não costumo enxergar essa diferença em meu cotidiano? Passei muitos anos da minha juventude, por ser modelo publicitária, sendo considerada linda e, por ser linda, burra. Após o acidente continuei sendo considerada linda, porém diferente. Passei a não precisar mostrar que não sou burra, mas enfrento uma árdua saga de mostrar que sou capaz.

 

Geralmente não me lembro de que atualmente estou fora dos padrões aceitos pela sociedade. Só me deparo com essa diferença quando 'dou de cara' com os obstáculos, sejam eles de acessibilidade arquitetônica, no vestuário e até no preconceito.

 

Vivemos em um mundo de intolerância e, o diferente, sempre encara a não aceitação da sociedade que insiste em seguir padrões caretas e um tanto medíocres. Nada é aceito se não for ao encontro do pensamento do outro. Não podemos ser gordos demais, nem magros demais, nem altos ou baixos demais, muito menos termos uma deficiência aparente (porque deficiência todos temos), nem termos  escolhas diferentes dos padrões em credo e orientação sexual, ou sermos de outra raça, enfim, sempre seremos diferentes dependendo do olhar do outro.

 

Eu, sinceramente, não luto para que aceitem as diferenças, porque pra mim não tem importância essa aceitação. Sim, eu luto muito pelo respeito às diferenças, isso para mim faz realmente diferença.

Lícia Lima: Algumas ações do ser humano vão impactar na natureza a curto e longo prazo. Você considera que as pessoas não possuem acesso às informações sobre os problemas de desequilíbrio natural que estamos vivendo ou falta algum programa de inventivo à preservação do meio ambiente?

 

Falta de informação sobre o cuidado com a natureza, o meio ambiente e respeito aos animais é o que o menos nos falta. Somos, diariamente, massificados pela mídia pedindo e alertando que é necessário, para ontem, cuidar do planeta em que vivemos, porém percebo que, a grande maioria não se desperta para esta emergência, talvez por não acreditar que realmente estamos vivendo uma série de mudanças em nosso planeta que vão desde as mudanças climáticas, como a escassez de água, o aumento da poluição, a extinção de muitas espécies de nossa fauna e flora, a ter realmente preguiça de adquirir novos hábitos que façam que nosso futuro seja mais promissor do que vemos hoje.

 

Os desastres ecológicos de hoje são consequências da nossa negligência com o nosso planeta ontem. Tragédias acontecem a todo momento por ganância e por termos um governo tão irresponsável no Brasil. Tragédias como a de Bento Rodrigues em Minas Gerais, que assistimos neste mês, afetando todo o ecossistema, perdendo rios, nascentes, matas, florestas, matando pessoas, animais e com consequências seríssimas para nosso futuro. E a multa para estas grandes empresas que destroem nosso país é irrisória e ridícula, praticamente incentivando e anunciando uma nova tragédia.

 

Eu particularmente e a revista digital Tendência Inclusiva lutamos por esta consciência de que devemos cuidar, preservar e respeitar a natureza. Ações de ONGs e de protetoras de animais sempre são bem vindas. Levamos informações em todas as edições da revista, temos a sessão de adoção de animais de rua, a sessão de solidariedade, a Bio Tendência, brilhantemente escrita por você, falamos exaustivamente sobre o respeito aos animais em nossas fanpages da Tendência Inclusiva e do Procura-se.
 

O que falta é ação, é conscientização e atenção aos alertas que estamos, insistentemente, fazendo.

 

Procura-se: https://www.facebook.com/procurase/?fref=ts

Adote um Amigo: http://www.tendenciainclusiva.com.br/#!adote/cbbr

Fundo do Mar

Fotos tiradas pelos companheiros de mergulho de Adriana Buzelin em Bonaire - AN

Rogélia Heriberta: Como você enxerga minha coluna Art Inclusiva contribuindo para a inclusão, uma vez que sendo não só defensora da pessoa com deficiência, também vive todos os desafios dessa luta que hoje, sem dúvida, sua revista tem ajudado a melhorar nosso mundo um pouco mais?

 

Sempre convivi com as artes. Meu avô paterno Francisco de Assis Horta Buzelin era Maestro, autor de hinos de Minas Gerais. Minha avó paterna Helena Brito Buzelin era poetisa. Minha tia, Maria Helena Buzelin, cantora lírica. Minha mãe, Iole Marques, Artista Plástica. Pai Tarcísio Buzelin e tios músicos e artistas plásticos. Tio José Carlos também colunista falando de música erutida. Irmão Márcio Buzelin que dedica sua vida a música sendo fundador e um dos integrantes Jota Quest. Também sempre convivi com a letras. Minha avó materna Márcia de Souza Marques era Jornalista, palestrante e grande formadora de opinião. Enfim, sempre respirei arte. Hoje sou escultora, mas antes de me acidentar tocava piano e dançava ballet clássico.

 

Ter uma coluna na Tendência Inclusiva que retrata nossos entrevistado, da maneira que você faz, é uma honra, pois estamos entrando em um segmento pouco visto que é sempre evidenciar a pessoa com deficiência e seus talentos.

 

Se você observar tudo no mundo é arte, desde o amanhecer ao anoitecer, dos dias ensolarados às tempestades (que por sinal adoro observar), nas cores da nossa rica natureza, na delicadeza da fauna, nos sons dos pássaros e das ondas batendo nas pedras. Até o silêncio profundo é belo, por isso nada mais natural que a inclusão estar ligada às artes.

 

Na arte demonstramos sentimentos, provocamos reflexões, incentivamos o respeito às diferenças, levamos beleza e, principalmente o amor.

Eu sou idealista, sou romântica e luto por dias melhores. Sou amante da vida! Eu amo viver com todos os seus desafios. E espero que, nesta minha passagem pela terra, eu possa contribuir com um pouco do que penso e sinto. Eu vivo, e parafraseando Gonzaguinha, não tenho nenhuma vergonha de ser feliz.

 

Obrigada a todos que se dispuseram a fazer parte do meu sonho. Sonho este que é coletivo e cresce trazendo belos frutos a cada dia!

 

 

"Adriana, Dri para os mais íntimos, é assim: uma mulher guerreira, visionária e com uma vontade ímpar de ajudar o próximo seja com palavras ou ações. Em constante busca pela felicidade e realização pessoal, ela inventa e reinventa o seu cotidiano e as marcas do passado, muitas delas dolorosas, não interferem em nada nos seus caminhos e objetivos de vida.

 

Adriana Buzelin  se encanta com as pessoas ao seu redor, prova disto, que respeita cada detalhe e cada palavra de seus colunistas. Muitas vezes é exigente, mas sempre determina algo com sorriso nos lábios e com o desejo intenso de que todos tenham sucesso e felicidade junto com ela, ou seja, ela valoriza sua equipe, valoriza o próximo, é intensa na vontade de ver todo mundo bem. As atitudes e a personalidade de Adriana merecem aplausos." Lícia Lima

Para conhecer mais sobre Adriana Buzelin: http://www.adrianabuzelin.com.br

Fotos e release: Arquivos do Entrevistado

 

 

por Lícia Lima em 25/11/2015

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