Anderson Xaviere o EJA

por Lícia Lima

Anderson Xavier respira música desde criança e é nesta inspiração que o professor da rede municipal de Belo Horizonte participa de um belo projeto chamado EJA (Educação de Jovens e Adultos) onde a educação e a cultura musical se tornam veículos de inclusão para jovens e adultos que por algum motivo encerraram seus estudos precocemente.

Você é filho de músico. Fale sobre seu pai e a influência musical na sua vida.

 

Meu pai, José Nunes de Oliveira (vulgo, Patesko), era músico (compositor) e sua família é toda musical. Inclusive, há um coreto batizado de "Coreto dos Nunes" em Pitangui em homenagem a ele e à família pela música produzida e cantada na cidade por décadas. Papai era professor de violão clássico. Ensinou Waldir Silva a tocar cavaquinho (informação confirmada pelo Waldir em várias entrevistas). Trabalhou na Rádio Inconfidência quando ainda era no início da Av. Afonso Pena, na antiga Feira de Amostras. Lá, acompanhou vários artistas como Elizeth Cardoso, Emilinha borba, Nélson Gonçalves e, dentre outros tantos, Clara Nunes. Esta última, segundo papai, adotou o seu "Nunes" por ser mais sonoro ao seu nome, já que a mesma se chamava Clara Francisca Gonçalves. Lembro-me dele contando que foi um dos grandes incentivadores da ida de Clara ao Rio para o sucesso. Aqui, já não tinha mais o que conquistar.  Sempre acompanhava papai, quando criança, às aulas que dava na casa de pessoas que, na época, podiam se dar ao luxo de tais aulas. Íamos eu, ele e seu violão, sentados geralmente no fundo do ônibus, onde a caixa do instrumento melhor se acomodava. Papai, sempre teve excelente gosto musical. E, claro, não poderíamos deixar de herdar tal glória. Minha família respira música. Todo o tempo. Recentemente, descobrimos uma música de papai garimpada nos arquivos da Rádio Inconfidência pela cantora Letícia Coura e gravada na Alemanha, incluída em um cd de coletâneas de músicas brasileiras.

 

Você coleciona ou tem arquivado algum material sobre cantores e grupos musicais renomados?

 

Tenho uma coleção de mais de 3.500 cds com músicas variadas de todos os estilos, principalmente a boa MPB. A base da música genuinamente brasileira, que começa lá nos finais do século XIX com Chiquinha Gonzaga e Pixinguinha (já no século XX) e vem até os dias atuais, como Ana Carolina, Marisa Monte e Maria Gadu, por exemplo. Aprecio muitíssimo vozes marcantes, afinadíssimas, ecléticas, como de Elis Regina. Atemporal!

Admiro muito, também, conjuntos vocais como o MPB-4 e o Quarteto em Cy. Ambos comemorando 50 anos de carreira com arranjos vocais fantásticos e dificílimos que embelezam as músicas que cantam mas pouco apreciados no Brasil. Afinal de contas, parece haver uma "preguiça" de se fazer arranjos. Também, com os tipos musicais que invadiram as rádios e TVs brasileiras nos últimos anos, não se faz necessário nenhum tipo de arranjo rebuscado. Afinal de contas, são altamente descartáveis, com refrões repetitivos que ligam nada a coisa nenhuma. Quanto à música internacional, muita coisa boa em várias áreas, seja de compositores ou intérpretes: Beatles, Elton John, Dionne Warwicke, The Carpenters, Black Eyed Peas, Coldplay e tantos outros. O diferencial se faz, essencialmente, nos arranjos instrumentais e vocais. São maravilhosos! E, mesmo na música clássica, ainda temos a luta solitária de André Rieu, popularizando o que seria impopularizado, imortalizando as grandes orquestras.

 

 

Você trabalha com alunos que não tiveram acesso a educação ou largaram o curso. Qual a idade deste seus alunos qual rede de ensino fazem parte?

 

Somos três professores da rede municipal de Belo Horizonte trabalhando dentro de uma ONG que dá todo tipo de apoio aos alunos, desde o vale transporte a cursos complementares de língua portuguesa, matemática, informática, dentre outros: a ASSPROM. Uma professora trabalha com a turma de alfabetização. A outra com a turma intermediária e, eu trabalho com a turma de certificação, aquela que já apresenta boa leitura e interpretação em todos os níveis. Daí, trabalho, toda semana, a vida de um grande compositor brasileiro. Meus alunos, normalmente, são adultos acima dos 40 anos. No entanto, tenho adolescentes também que se interagem perfeitamente com os adultos. A turma torna-se eclética no sentido positivo, com boa troca de informações entre eles. O prazer desta aula é indescritível!

 

O que te incentivou ou motivou a levar cultura musical a estes alunos?

 

A PBH, dentro do projeto de EJA, nos cobra aula de artes. Como não tenho esta habilidade, fiquei pensando em como trabalhar arte com os alunos. Então, não pensei duas vezes: conhecimento musical! E, ao mesmo tempo, trabalhar interpretação de texto e ortografia com os mesmos. Prazer e conhecimento ao mesmo tempo!

Anderson exibe com orgulho o pôster com diversas caricaturas de cantores que marcaram uma geração. 

Qual a receptividades dos alunos quanto a este universo cultual tão diferente das músicas dos dias atuais?

 

Eles ficam ansiosos, curiosos para saber qual será o novo compositor que será trabalhado na outra semana. Faço um texto biográfico do compositor e elaboro perguntas para trabalhar a interpretação de texto, além de verificar sua ortografia após os exercícios, que são feitos em sala de aula, ouvindo as principais músicas do referido compositor. Enfim, houve uma evolução fantástica na interpretação, reconhecida por eles próprios. E o envolvimento, claro, é muito grande. Trabalhando com uma população das classes C, D e E, e na faixa média dos 40 anos, observei que muitos trazem consigo um conhecimento musical adquirido por eles próprios e herdado de familiares. Daí, veio-me a ideia de trabalhar os grandes compositores brasileiros (sua biografia, sua obra). Junto ao material que eu os entrego, há a letra de algumas músicas de sucesso compostas pelo referido autor. Depois, monto um estudo dirigido em cima do texto, o qual é feito em sala de aula, ouvindo suas obras.

 

Durante o trabalho, ressalta-se a oralidade (eles leem em voz alta), a interpretação de texto, a escrita, a discussão da obra e interpretação de suas músicas e, claramente, o conhecimento cultural. Trabalho prazeroso de ambas as partes!  Houve a sugestão de trabalharmos, para o próximo ano, os grandes cantores e atores. Digo SUGESTÃO pois, na EJA, tudo que for trabalhado em sala de aula parte da necessidade dos alunos! Claramente, o básico é trabalhado, mas as alternativas de continuidade do trabalho ficam a critério deles, já que são eles próprios a parte interessada e ansiosa de conhecimento). Sempre que podemos somos convidados pelo Palácio das Artes, pelo SESC Paladium, etc, para que possamos assistir algo cultural, seja a uma peça de teatro ou a algum show.  É a apresentação dos espaços públicos a quem é de direito!

 

 

Quantos alunos por turma têm acesso a este projeto?

 

Cada turma não ultrapassa 20 alunos, o que é o ideal, para um bom trabalho, pois quem procura EJA (Educação de Jovens e Adultos)é aquele aluno, em geral, que teve de se afastar do ensino regular por motivos diversos ao longo de sua vida escolar. Faz-se necessário um trabalho mais individualizado em vários momentos. Uma atenção maior a este ou àquele aluno. Com a turma muito cheia, torna-se inviável o trabalho. O projeto acaba por se perder em uma de suas objetividades que é deixar o aluno à vontade para interagir com o professor. Estão cogitando que as turmas de EJA tenham, no mínimo, 35 alunos por sala e que tenham notas de zero a cem. A avaliação de EJA é contínua, no dia a dia, sem avaliação formal.

 

 

O cd Sassaricando é um dos preferidos do professor, pois são marchinhas de carnaval temáticas e contam a história do povo brasileiro. Retratam a política, preconceitos e romantismos em épocas distintas. É um material riquíssimo para trabalhar em sala de aula, pois mescla com aula de história.

 

Depois que os alunos formam, você tem informações sobre os caminhos tomados  por eles? 

 

Inúmeros ex-alunos já nos visitaram, dando retorno positivo ao nosso trabalho que inclui, além do aprendizado de leitura e interpretação nas mais diversas áreas,  a perda da inibição e o convívio com o coletivo, além da prática do altruísmo. O aluno só é certificado depois de uma conversa entre nós professores e ele, avaliando seu desempenho em âmbito geral e apontando suas dificuldades e melhoras. O aluno passa a ter autoconfiança e autoestima, perdida há muitos anos. Tenho o caso de uma ex-aluna que sofria de uma depressão extremamente séria, além de não ter apoio da família para continuar os estudos. Com muita força de vontade e incentivo por minha parte e dos colegas de sala, conseguiu o certificado e hoje frequenta as aulas de um curso na área de gastronomia. Este ano mesmo, recebemos a visita de vários ex-alunos. A maioria, dá continuidade e ingressa no ensino médio e, até mesmo, na faculdade. Os alunos dizem que nossa aula é uma verdadeira terapia. Muitos formam e querem retornar.

 

Você se sente realizado trabalhando com Educação Inclusiva? O que falta para que projetos como estes sejam copiados e levados a população que ainda não teve oportunidade de estudar?

 

O trabalho na EJA é algo indescritível! O retorno é diário, imediato, e a longo prazo também. O "desabrochar" de alunos com perfis tão distintos, com histórias tão diversas de sofrimento, de luta, de bullying até mesmo do marido e dos filhos, não tem preço! Ganho como funcionário da PBH para fazer um trabalho que faria como voluntário. Aliás, todo profissional é bem recebido por nós. Qualquer um que queira, voluntariamente, apresentar algo que enriqueça a vida destas pessoas, será muito bem vindo. Estamos de portas abertas. Sempre!

 

Como diz Walter Franco, "Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo." Conhecimento adquirido não é roubado nunca!

Um pouco do acervo utilizado por Anderson Xavier no EJA (Educação de Jovens e Adultos).

Fotos: Lícia Lima para arquivo da Revista Tendência Inclusiva

Agradecimento a Juliana Aun pelo apoio durante as fotos

 

 

por Lícia Lima em 15/12/14

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