Garotas FDP 

por Sandra Kiefer

            “Quatro amigas-irmãs com estilos incrivelmente diferentes e todas alucinadas por moda. Depois de 15 anos de amizade, dietas e dificuldades de encontrar roupas resolveram juntar tudo isso no Garotas FDP”.  Olhando rápido,  os mais distraídos podem levar susto com o o nome deste blog, rapidamente associado  a um palavrão. Nada a ver. Com mais de 50 mil acessos e 37 mil seguidores, o Garotas Fora do Padrão (daí a sigla FDP)veio para não ser esquecido, abordando com irreverência e bom humor as questões que envolvem pessoas gordas, conforme elas gostam de dizer.  “Gordinha é só o diminutivo de gorda.  Sou gorda, assim como você pode ser magra. Queremos desmitificar a ideia de ser uma agressão chamar alguém de gordo”, esclarece Caroline Kerbidi, de 31 anos, que concedeu esta entrevista inédita ao Tendência Inclusiva, falando do Rio de Janeiro por meio do Skype.

          O bate-papo envolveu também Ana Carolina Diniz e Mariana Cyrne, que moram em Belo Horizonte. Desta vez, ficou de fora Jamille Chamon, que na semana em que foi gravada a conversa, havia acabado de ganhar a primeira filha, Olivia. No editorial de moda, antecipado especialmente para a Tendência Inclusiva, as quatro amigas mostram todo o estilo, maquiagem e uma baita autoestima, que as tornam tão especiais e queridas pela audiência.

        

          Segundo Garotas FDP, que aposentaram a balança, é possível amar a si própria e ser feliz diante do espelho, mesmo estando um pouco acima do peso dito ideal. “Então, se eu posso deixar uma dica para você que realmente vá mudar a sua vida é: se olhe mais. Se olhe até decorar cada parte do seu corpo. Reconheça-se. Tire mais fotos. Filme-se. Pare de comparar seu corpo ao de outras pessoas negativamente.  E lembre-se: corpo perfeito é aquele que carrega uma pessoa feliz dentro dele!”, explica a jornalista Mariana Cyrne, uma das cabeças pensantes do grupo.

Carol Kerbidi, Carol Cyrne, Jamille Chamon e Mari Cyrne 

Fotos:  ponto618.com.br

Antes de começar a entrevista, gostaria de tirar uma dúvida. É que eu nunca tinha ouvido falar desse termo ‘fora do padrão’ para designar pessoas acima do peso. Essa expressão foi criada por vocês ou ela já existia com essa conotação?

Caroline Kerbidi: Dentro da indústria de moda, a nomenclatura mais aceita é plus size. Mas para nós, quando pensamos no nome fora do padrão, era para nos posicionar contra padrões loucos impostos pela mídia, que acaba ditando a maneira de vestir, o jeito de se comportar, a cor da pele e até o peso de cada uma. Na realidade essas regras estão sendo questionadas, revistas mundialmente. As últimas pesquisas revelam 95% das pessoas estão hoje fora desse padrão convencionado como certo. A grande verdade é que ele é inalcançável...

Só voltando um pouco para o Garotas FDP. Como foi criada essa sigla genial, que mais parece um slogan do que apenas um nome?

Mariana Cyrne: A decisão do nome envolveu muito trabalho, exigindo conhecimento de marca e de público. A gente não queria ser mais um blog que caísse no esquecimento. O critério foi pensar em algo para chamar a atenção e que não saísse da cabeça das pessoas, puxando para o lado do humor e da irreverência.

Só para o público entender, vocês quatro estão, digamos, fora do padrão?

Caroline Kerbidi: Sim, mas não só plus, é no geral.  Até a Jamile, que veste a numeração 38, já se sentiu excluída, com dificuldades para achar modelos abaixo do P. É curioso, mas acredita que muitas vezes as lojas não oferecem o PP? Nem quando ela estava grávida as roupas de tamanho P serviam nela. Na verdade, a Jam mata a gente de raiva rs.

Quer dizer que as outras três estão acima do peso. Sempre foram mais gordinhas?

Caroline Kerbidi: Olha, sempre me vi gorda, desde os 8 anos lembro de minha mãe escondendo comida de mim. Só fui magra por cinco minutos, na adolescência. Eu tinha 17 anos e consegui fazer uma dieta dura, tomando remédio tarja preta. Consegui perder 30 quilos e entrei na faculdade magérrima, mas o processo não foi sustentável, como nunca é. Todos falam na tal da reeducação alimentar, mas para mim ela é um fantasma, que ainda estou procurando.

"Mas não só plus, é no geral.  Até a Jamile, que veste a numeração 38, já se sentiu excluída, com dificuldades para achar modelos abaixo do P. É curioso, mas acredita que muitas vezes as lojas não oferecem o PP?" Caroline Kerbidi

Como foi o processo de vocês se assumirem fora do padrão?

Ana Carolina Diniz: Olha, a maioria de nós já sofreu com o efeito sanfona, mas no fundo, a gente pensava que, na hora em que quiséssemos mesmo emagrecer, bastava tomar um remédio e pronto. Era fácil voltar a ser magra,  mas isso sem medir as consequências dos danos à saúde. Chega uma hora em que você assume que não pode mais viver assim. Ou você faz mesmo a reeducação alimentar ou então se aceita do jeito que é.  Já fiquei quase 30 anos me martirizando e vou  ficar mais 30 anos fazendo dieta?  Se precisar fazer compromisso de  que não vou comer o que gosto para o resto da vida, então isso não serve para mim. Sinceramente, não consigo.

Fiquei curiosa para saber como foi entrar um palito na faculdade, pertencer a um mundo onde você era reconhecida como magra.

Caroline Kerbidi: Olha eu já havia emagrecido outras vezes. Fazia dieta e perdia 10 quilos, depois engordava de novo. Era uma sanfona, mas nunca tinha emagrecido tanto. Foi importante para mim estar magra no auge da puberdade, pois me permitiu aflorar como mulher. Só aí dei o primeiro beijo e arranjei o primeiro namorado, seja porque eu não me aceitava como era ou porque os outros não me aceitavam. Serviu para dar o gatilho. Demorei a perceber que eu era um super bom partido e que tinha várias coisas a oferecer como mulher, independentemente do meu tamanho. Tanto é que meu marido já me conheceu gordinha. Mas o processo de aceitação, dizendo ‘eu me amo do jeito que sou’ é recente,  não é desde sempre. É recente.  

Como a aceitação bateu para as outras?

Ana Carolina Diniz: Penso que se tornou  uma imposição tentar a reeducação alimentar. A cada dia inventam uma nova dieta da moda, como a que acabo de ver no Instagram, recomendando uma variação da low carb. Quer saber? Nós quatro fazemos exercícios físicos com regularidade e não temos problema de saúde. Nenhuma de nós é adepta do junk food. Também não passamos o dia inteiro na frente da televisão, comendo pizza. Mas por acaso alguém consegue ficar sem comer pão todos os dias?

Boa pergunta: alguma de vocês viveria sem pão?

Caroline Kerbidi: Olha, não existe essa história de engordar só se alimentando de ar. A gente assume que gosta de comer, mas já absorveu uns cacoetes de dieta. Eu, por exemplo,  evito comer feijão com arroz todos os dias e tenho sempre produtos naturais na geladeira. No entanto,  mesmo que meu metabolismo não seja tão rápido,  não vou me privar de sair para jantar com meu esposo e pedir um risoto, em vez de salada. E também vou querer a sobremesa.

Tenho uma dúvida: comer de tudo, tudo mesmo, traz felicidade?

Custei a entender que minha felicidade não estava vinculada ao peso.  Tinha uma grande expectativa de que o dia em que conseguisse ser magra, eu seria feliz. Na verdade acho que eu nem enxergava as conquistas mil que aconteciam ao meu redor.  Eu me formei com honras na pós-graduação e  meu namorado (agora meu marido) tinha me pedido em casamento, mas só pensava em ser magra, como se isso fosse a cereja do bolo. Percebi que, mesmo magra na época da faculdade, continuava com os mesmos problemas e inseguranças de antes.  Não dá para ser feliz sentindo culpa a cada mordida e falando o tempo inteiro sobre dieta. Minha libertação veio com o blog.

Carol Kerbidi, Carol Cyrne,  Mari Cyrne e  Jamille Chamon

Foto: ponto618.com.br

Quer dizer então que vocês estão mais felizes, desde que se assumiram gordinhas? Outra pergunta: devo usar o termo gordinhas?

 

Caroline Kerbidi: Olha, nós somos gordas mesmo. Gordinha parece soar mais leve, mas é só o diminutivo de gorda. Queremos desmistificar a ideia de que dizer gorda seria uma agressão. Eu sou gorda e você é magra, ok? Você é morena e eu sou loura, ainda que falsa loura (risos).

Voltando ao assunto, vocês estão se sentindo mais felizes?

Caroline Kerbidi: Em meu processo de aceitação, descobri que a felicidade tem pouco a ver com a gordura e mais a ver com o amor. Talvez minha ansiedade tenha até diminuído, mas o importante é que aceitei meu corpo e consegui me amar como sou. Passei a entender que a Carol é gorda, adjetivo, mas que ela também é mãe, é legal, é interessante, alegre, criativa... Pra ser sincera,  nem me peso mais. Não saberia dizer quanto estou pesando hoje.

Ana Caroline Diniz: Olha, antes de criar o blog era impensável para mim aparecer em fotos de corpo inteiro. Impensável. As fotos eram sempre do pescoço para cima, como se o resto nem existisse. Sério, acho que algumas pessoas só conheciam meu rosto. Com o nascer do blog, comecei a me admirar nas fotos, a perceber peças de roupa que me caem bem e me maquiar... Até ensaio sensual me peguei fazendo junto das Garotas FDP. Imagina! A verdade é nós quatro sempre fomos muito bonitas, sem falsa modéstia. Mas a partir do momento em que a gente passou a se arrumar mais para o blog, noto outros tipos de olhares e comentários, principalmente de homens. O número de acesso deles no blog é inclusive bem grande(risos).

Mariana Cyrne: A verdade é que o retorno dos seguidores nos incentiva a oferecer mais de nós, a cada vez. Descobrimos que, quando a gente tenta ajudar outras pessoas a se amarem mais e elas também nos ajudam, com seus comentários e elogios. É uma relação de troca. De um ano para cá nossa vida mudou consideravelmente para melhor. Para mim, o processo de aceitação foi sensacional! Só posso agradecer por fazer parte do Garotas FDP. Beijos e mais beijos, cheios de amor próprio.

Conheça mais das Garotas FDP: https://www.facebook.com/GarotasFDP/

 

Sandra Kiefer é jornalista há 21 anos, recebeu prêmios importantes por redigir histórias nem sempre belas, mas que precisam ser contadas para ajudar a mudar o mundo, onde ela vive com o marido e dois filhos.

 

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