Kica de Castro

e sua trajetória na moda inclusiva.

 

Apesar de Kica de Castro, fotógrafa, publicitária e criadora da primeira agência de modelos para pessoas com algum tipo de deficiência do Brasil, não gostar de receber o título de pioneira, ela é! Dona de muito talento e profissionalismo, acreditou em uma ideia que parecia impossível e hoje tem em sua agência 86 modelos que que fazem muito bonito neste universo da moda inclusiva.

Foto: Lucas Lima

Como a fotografia surgiu em sua vida?

 

Uma paixão de infância. Meu pai fotógrafo amador. Ficava encantada em ficar ao lado dele, para aprender a mexer no equipamento, ao invés de ficar fazendo poses com minhas duas irmãs. Profissionalmente, entrou na minha vida em 2000, quando deixei agências de publicidade para fazer fotos de eventos, corporativos e sociais. Em maior demanda, os casamentos, que faço até hoje, com o maior prazer.

 

Como surgiu a agência de modelos para pessoas com algum tipo de deficiência Kica de Castro?

 

Kica de Castro Fotografias, existe desde 2000. No ano de 2007, inclui nas minhas atividades o agenciamento de pessoas com alguma deficiência, para o mercado de trabalho, comercial (publicidade) e fashion (moda). Não mudei o nome da empresa, como já trabalhava com fotografias, foi apenas complementar as atividades. Voltando um pouco ao passado (rs),no ano de 2002 fui trabalhar como chefe do setor de fotografias em um centro de reabilitação para pessoas com algum tipo de deficiência física. Demanda para fotos científicas, prontuário médico e artigos científicos. Foram cinco anos de estudo, convivência, pesquisa e sabendo escutar as pessoas. O sonho em ser um modelo com deficiência, eram de muitos, mas as oportunidades, quase nulas. Vendo o potencial, a vontade de querer trabalhar, resolvi estudar a possibilidade de investir nesse mercado de trabalho. Deixei o emprego fixo, para estar na frente da agência, em busca de oportunidades, para todos. Olhando tudo que foi feito, cada humilhação, cada pessoa me chamando de louca, pessoas que não acreditam em resultados, eu sendo teimosa, tenho orgulho de ver cada conquista, da menor para maior. Tudo que conquistamos, nesses 9 anos de trabalho, é de cabeça erguida, com a certeza que tudo é consequência de nossos esforços.

 

A fotógrafa Kica de Castro recebeu em 2013, homenagem no Dia Internacional da Mulher, no qual fez questão de dividir a premiação com Priscila Menucci, atriz e modelo com nanismo, reconhecida pelo Rank Brasil como a menor atriz brasileira. 

 

Ao fundo uma mini  exposição, mostrando alguns dos trabalhos realizados pela agência.

Sabemos que sua agência é procurada por muitas pessoas que desejam realizar o sonho de ser modelo, para ser modelo o que é necessário? Quais são os critérios usados para escolha de seus modelos?

 

Assim como em qualquer carreira profissional é preciso muita dedicação. Hoje não é uma realidade para pessoas com deficiência, viver exclusivamente do trabalho de modelo. Estamos na luta, poucas são as pessoas que vivem dessa carreira, porém, estamos otimistas com os resultados do trabalho, tenho plena certeza que as mudanças estão por vim, em grande estilo. Quem tiver o interesse em seguir essa carreira, precisa marcar um dia para teste e avaliação do perfil profissional. Quem não estiver preparado, é orientado para fazer os cursos, de acordo com o perfil. Exemplo, quem é modelo comercial, precisa saber atuar, para isso precisa ser ator. O mercado de trabalho exigi dos profissionais o DRT, para ter, é preciso fazer um curso de teatro. Em São Paulo, existem alguns bons cursos gratuitos. Cada pessoa, na avaliação, recebe uma classificação, nisso são passado às orientações. Um bom profissional precisa cuidar da aparência, cabelo, unha, pele, ter uma boa alimentação, atividades físicas, cumprir horários. Critérios que são exigidos pelo mercado, sendo o profissional com ou sem deficiência. Todos são iguais nos direitos e deveres. Aproveitando para informar que o cachê, para um profissional com deficiência, não é diferente dos profissionais sem deficiência.

 

Qual a diferença entre modelo comercial e modelo fashion?

 

De forma resumida: o modelo comercial é o que faz publicidade, fotos, comerciais de TV, dos mais variados produtos, não apenas para o segmento, mas publicidade como um todo.  Quando o mercado fala fashion, é uma referencia para moda, na qual na agencia subdividimos em fashion editorial, foto de moda ou fashion passarela, voltado para os desfiles.

 

Em desfile para o shopping Piracicaba, Kica de Castro a frente. Os modelos da esquerda para direita:  Juliana Caldas, atriz e modelo com nanismo; Paula Ferrari, fisioterapeuta e modelo, sequela de mielite, usuária de cadeira de rodas para longas distâncias; Maraísa Proença, atleta e modelo, amputação de membro inferior, usuária de prótese. Mah Mooni, modelo, amputação de membro inferior, sem prótese. 

Em externa, momento de descontração entre o maquiador Andre Lima e a fotógrafa Kica de Castro.

 

"Não basta ser fotógrafa tem que ser cabide, não basta ser maquiador tem que ser modelo" - brinca Kica de Castro

Como você enxerga o mercado dos modelos inclusivos desde que abriu sua agência até os tempos atuais?

 

No começo, grandes dificuldades, muitas  pessoas chegavam com os pré julgamentos, os “achismos” sem dar oportunidade. Ninguém acreditava que seria possível, ao poucos e com muita luta, mostrando que tudo é possível, quando a primeira oportunidade é dada.  Com o tempo, fazendo as exposições fotográficas, mostrando que beleza e deficiência não são palavras opostas, mostrando nosso ponto de vista, muitas janelas foram abrindo. Continuamos lutando, até que as portas estavam abertas. Muitas coisas precisam ser feitas, mas estamos bem otimistas com os atuais resultados. Modelos com deficiência, já são referencias de beleza, visto a nomeação conquistada de Caroline Marques, como Miss Brasil, um dos atuais exemplos.  Temos grandes participações em eventos, sabemos que é a colheita do que foi plantado. Porém, a plantação continua, para no futuro, colher ainda mais resultados positivos. As palestras em universidades, outro exemplo, continuam a todo vapor, pois apostamos nos futuros profissionais, que vão sair dos cursos com a visão inclusiva. Sabemos que tudo que é feito hoje, só vai dar resultado amanhã. Antes não tinham espaço para pessoas com deficiência atuar nesse mercado de trabalho, hoje já existem, porém precisam ser ampliados.

 

 

"Modelos com deficiência, já são referencias de beleza, visto a nomeação conquistada de Caroline Marques, como Miss Brasil Revelação 2015, um dos atuais exemplos" - afirma Kica de Castro.

E a moda inclusiva, o que tem a dizer desse nicho de mercado que ainda é tão pouco valorizado a nível de investimento?

 

Roupas adaptadas, é uma boa opção de investimento. Existem consumidores, por sinal, um número bem significativo. Cerca de 46 milhões de pessoas com alguma deficiência,  em território nacional, que gostam de moda, são vaidosos, usam o look como ferramenta para expressar personalidade, de autoestima e até independência. Muitas das marcas que estão no mercado, têm uma visão, mas do dia a dia, facilitar a rotina do cuidador, deixando em muitas vezes a pesquisa de opinião de lado. O verdadeiro sentido da palavra inclusão é quando serve para todos. Adaptações, que facilitam o despir e vestir, são importantes, assim como pensar em soluções que não machuquem a pele e que tenham funcionalidade. Um bolso em uma calça, na parte de trás, para uma pessoa que é usuária de cadeira de rodas, não tem utilidade, então o bolso pode ser aplicado em outras partes. Para uma pessoa que tem dificuldades com a coordenação motora, um botão, pode ser algo complicado, talvez um velcro,  zíper com argola ou botão de imã,  pode ser algumas das alternativas adotadas. Esses são alguns dos exemplos. As marcas que existem no mercado, muitas são de forma virtual, outra verdadeira loteria. Nem sempre o que olhamos em site, fica bom no corpo, seria interessante, ter um espaço físico, com provadores adaptados, que as marcas que fazem roupas adaptadas, consigam espaço em grandes magazines, mas de novo, vem a questão de acessibilidade, pois provadores adaptados são raros no Brasil. Também é preciso criar looks, para todas as ocasiões, afinal, pessoas com deficiência, fazem parte de tudo a todo o momento. Quem investir nesse mercado, vai ter grandes retornos. Loja virtual é uma boa opção, só precisam de alguns ajustes. Não existe uma medida padrão. Um look, por exemplo, tamanho P, pode ficar um pouco apertado para um, folgada para outro. Eu mesmo, em muitas vezes, compro roupas e tenho que mandar ajustar a barra, principalmente das calças jeans e vestidos longos. Tem outro exemplo, que gosto de mencionar. Algumas noivas mandam fazer os vestidos, para o grande momento, em alguns sites da China, que pedem as medidas, explicam como fazer as medidas. Todas as noivas, que tive contato que fizeram isso,  olha que foram muitas, relatam boas experiências, pois todas afirmaram que quando provaram o vestido, realmente o mesmo foi feito sobre medida para o corpo. Pelo site, podem escolher todos os detalhes do vestido. A moda, na questão medida, não tem uma padronização, nesse caso, podemos voltar aos tempos que tudo era feito sob medida. A pessoa tinha que ir até a costureira e fazer as medidas, escolher a cor, tecido... As lojas virtuais podem fazer as peças, sob medida, até mesmo parceria com costureiras, em cada região, caso os looks precisem de pequenos ajustes. Apenas sugestões.

Como você enxerga o universo da moda inclusiva e os desfiles realizados no Brasil e fora dele?

 

Fora do Brasil, temos muitos exemplos de inclusão, nesse sentido. Existem desfiles de moda inclusiva, que é mostrar as roupas adaptadas como existem os desfiles inclusivos, que são pessoas com e sem deficiência, na mesma passarela. No Brasil, isso ainda é feito de forma muito tímida, são poucos os exemplos, existem concursos, de moda inclusiva, um aqui, outro ali, mas os estilistas, só pensam na inclusão, nesse momento, fora dos concursos, são poucos que dão continuidade. Exemplo positivo é o que o Prêmio Catarinense de Moda Inclusiva, faz em Florianópolis. Em 2014, teve a sua segunda edição. Antes do concurso, percorreu todo o estado para incentivar os estudantes de moda, a pensar nesse mercado como uma atividade profissional. São meses antes de palestras, seminários e workshop mostrando tudo que existe nesse universo.  Agora para terceira edição, sem data definida para 2015, Claudio Rio, que faz parte da organização, planeja dar cursos profissionalizantes, para estilistas, para pessoas com deficiência que querem ser modelos. Dar qualificação para ter profissionais formados no estado. Diego Luis, que ganhou o primeiro lugar, quer investir nesse segmento, pois observou que faltam roupas mais sociais. Em conversa que tive com ele, após evento, ele mostrou toda preocupação com pesquisa, criou três looks sociais, pensando em tendências da moda, como segunda pele, bordados, estampas, pedraria, é que a pessoa com deficiência, vai para festas, baladas, tem vida social tão ativa como qualquer pessoa, que o look também pode mostrar a sensualidade na medida certa. O SENAC de São Paulo, na Rua Faustolo, já esta incluindo a moda inclusiva, para os futuros estilistas, mostrar que esse é um caminho a ser seguido profissionalmente. Muitos desfiles no Brasil, são com uma visão de assistencialismo, alguns sem objetivos, nada contra, se a pessoa quer fazer para autopromoção, fica a critério de cada um seguir o seu caminho. Na agência, valorizamos o profissional, como um todo. Quem é modelo, vive de sua imagem, para isso precisa receber o seu cachê. Muitas pessoas têm a visão de fazer pelo “social”, divulgar a causa, levantar uma bandeira, afirmo nada contra, apenas não é nossa visão. Como agência, aqui pensamos na questão profissional, o modelo trabalho e precisa receber no final. Em alguns casos, existe uma troca, na qual o profissional da agencia e consultado antecipadamente, tudo feito de comum acordo, desde que realmente tenha vantagens para o modelo.

Algumas fotos de companheiros de trabalhos desenvolvidos por Kica de Castro

Você recebeu o prêmio de Paulistano Nota 10 da Veja SP em 2014, nos conte um pouco como foi?

 

No ano de 2013, a revista Veja São Paulo, entrou em contato para fazer uma entrevista, com objetivo de mostrar o trabalho da agência. A matéria foi publicada na coluna Paulistano Nota 10. No ano de 2014, a revista teve a iniciativa de transformar a coluna em um prêmio, para pessoas que transformam a cidade de São Paulo de alguma forma. Foram separadas 47 histórias e 10 premiadas, sendo por júri popular, pelo site da própria revista. Foi uma surpresa, estar entre as 10 histórias premiadas. O reconhecimento do trabalho da agencia, como sendo transformador, não tem preço. Recebemos o troféu da mão do publicitário Nizan Guanaes, sendo eu publicitária, fiquei feliz de receber o reconhecimento de um profissional altamente qualificado na área de comunicação. Fiz questão de dividir esse momento com a equipe, na hora de receber o prêmio, o palco foi divido com parte equipe, pois infelizmente, não foi possível levar todo mundo. Juntamente comigo, estavam: Andre Lima, que é nosso maquiador e deixa os modelos mais lindos ainda,  Caroline Marques, que foi nomeada Miss Brasil, mostrando que a beleza é deficiência não são palavras opostas, Giovanni Venturini, que é um ator com nanismo e prova que o humor é feito com qualidade não por ser uma única opção, mas por que ele escolheu e estudou muito para ter essa profissão. A paratleta  Marinalva Almeida,  estava presente, mostrando que atividade física tem que fazer parte da rotina de quem quer ser uma modelo reconhecida.

Na foto Marinalva Almeida, Kica de Castro, Caroline Marques e Giovanni Venturini no evento Prêmio Paulistando Nota 10 da Veja SP.

Foto: André Lima

Nos fale um pouco do seu trabalho como colunista da Revista Reação e aqui na coluna Retratos Inclusivos da nossa revista?

 

Em ambas, estou como colaboradora.  Acho importante ter esses espaços para mostrar o trabalho de todos. Antes das fotos, existe um trabalho de muitos. É preciso valorizar o modelo, o estilista, o maquiador... A fotografia é apenas uma ferramenta de eternizar um todo. Os editoriais, em ambas, são de extrema importância, pois levam a informação para os mais diferentes públicos. Os empresários observam o potencial de cada profissional, os modelos ganham espaço para expor suas capacidades, a sociedade consegue ver uma quebra de paradigmas, que beleza não é uma questão de padronização. Os estilistas, que querem investir em moda inclusiva, têm espaço para mostrar o trabalho. Claro, posso mostrar  meu olhar, em cima da inclusão, sem rótulos ou censura. Nem melhor nem pior que ninguém, apenas meu ponto de vista, minha opinião em imagens fotográficas.

 

E suas exposições, qual objetivo delas?

 

As exposições têm por objetivo mostrar a beleza que existe em cada pessoa, sem precisar usar nenhum tipo de intervenção de computação gráfica. Tem a preocupação de mostrar  o potencial de cada profissional, a capacidade de estarem atuando nesse mercado de trabalho, além de ser um grande desafio, buscar novos ângulos, novas poses, novas formas de refletir sobre a inclusão desses profissionais em um mercado de trabalho que já foi ditador um dia. Expor é um investimento que não deixamos de lado, pois sabemos que nossa sociedade é muito visual, uma cultura de “São Tomé”, é preciso ver para crer.

Exposição Beleza que quebram Barreiras em Votuporanga com Ana Cardana, assistente social, na qual Márcia Gori, criadora da ONG Essas Mulheres,  compareceu representando Kica de Castro.

Como é sua participação na ONG Essas Mulheres e na Campanha STOP?

 

Trabalho da ONG Essas Mulheres de forma voluntária, desde sua existência, em 2013. Faço parte do setor de marketing e também atuo como fotógrafa. Na campanha STOP, fiz o planejamento, juntamente com a equipe, colaborando com idéias. A ONG também tem por filosofia realizar tudo pela coletividade. Tudo é feito em conjunto para garantir da melhor forma possível os direitos humanos e da pessoa com deficiência. Todas as ideias são discutidas em equipe, entre as coordenadoras dos estados. Não somos apenas uma equipe, formamos uma família. Conheça o trabalho pelo site: www.essasmulheres.org

Selfie tirada para Campanha STOP da ONG Essas Mulheres.

Quem é Kica de Castro e qual recado você deixa para os leitores da Tendência Inclusiva?

 

Kica de Castro é uma fotógrafa. Para algumas pessoas uma pessoa chata e para outras uma pessoa focada em resultados. Não sou melhor e nem pior que ninguém, fico na minha, busco resultados do meu trabalho, sem precisar "puxar o tapete" de ninguém. Sempre falo o que penso, da melhor forma possível, na tentativa de orientar quais são os melhores caminhos a serem seguidos. Falo bastante, mas escuto na mesma proporção. Sempre trabalho em equipe, onde todos têm oportunidades e reconhecimentos. Quando temos foco, a primeira coisa que precisa ser feito é colocar Deus na frente, ele é a melhor opção em tudo que vamos fazer. Escutar um não é natural, isso não é motivo para deixar qualquer sonho de lado. Batalhe diariamente, até conquistar o tão sonhado SIM. Muitas vezes, é preciso refazer alguns caminhos, planejar novas alternativas, buscar referencias, estudar mais e nunca culpar os outros. Quando alguma coisa não saiu como planejada, seja autocrítico, o preconceito existe, mas ele não é culpado em 100%. Sugestões e trabalho em equipe, sempre são bem vindas na agência. Estamos sempre de portas abertas. Não perca tempo desejando coisas negativas para ninguém, pois essas forças podem voltar para você.

Confira a coluna Retratos Inclusivos da fotógrafa Kica de Castro quinzenalmente aqui na Tendência Inclusiva!

 

Para contato com Kica de Castro: 

www.kicadecastro.com.br

kicadecastro@gmail.com

 

Fotos: Acervo Pessoal da Fotógrafa

 

 

por Adriana Buzelin em 30/01/2015

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