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INCLUSÃO NA PRÁTICA


Participação de Gelzimar Borges

Em tempos de comemoração ao dia Internacional da Síndrome de Down é comum temas como inclusão e respeito às diferenças virem à tona nas diversas mídias, mas sabemos que na prática mesmo, pouca coisa é feita em prol de crianças e adultos com a síndrome. Existem diversas leis que obrigam as escolas a manterem turmas inclusivas para atenderem não só crianças com SD , como com as demais necessidades educacionais especiais. Porém , nem todas possuem estrutura e profissionais capacitados para atenderem esse público, cada vez mais presente em nossa sociedade.

Em Sobradinho, cidade satélite de Brasília, em uma escola pública encontramos uma realidade diferente. A escola recebe alunos cursando do primeiro ao quarto ano do ensino fundamental, com idade entre 6 e 14 anos, que no ano de 2013 recebeu uma aluna com SD, já com 14 anos oriunda do Centro de ensino Especial da mesma cidade, que veio com indicação para uma classe especial. A aluna chegou e não interagia com os alunos da classe especial. Logo pela manhã ao chegar na escola, ela entrava na fila de uma outra professora, uma turma “normal”, depois de muita conversa, ela aceitava ir para sua sala, mas de novo sem muita motivação e sempre isolada dos demais. A pedagoga da instituição, resolveu junto com a professora leva-la para a sala da professora do primeiro ano, fila que ela entrava, na hora da “rotina” , hora em que o professor inicia a aula, conta histórias, trabalha o nome de cada criança, como está, o dia, quantos, somos, etc., e depois ela voltava para a sala dela. Elas começaram a observar que enquanto ela estava na sala, inclusa, ela estava sorridente, participava. E, quando voltava para a sala que tinha crianças com outras necessidades, que na maioria nem falavam, ela murchava como uma flor, retirada do pé. As professoras decidiram fazer com ela um laboratório, colocando-a em uma turma de segundo ano, já reduzida que tinha outro aluno com SD, ela simplesmente desabrochou, em casa, só falava na escola, nos colegas, na “Tia”, agora a inspiração dos dias dessa pequena. Ela adaptou-se tão bem a turma e a turma tão bem a ela, que a escola resolveu pedir a inclusão dela de fato à Secretaria de Educação. Foi quando veio a primeira negativa, mas ela tem 14 anos e os alunos da turma 8 anos. E a escola continuou insistindo, até que a escola foi visitada e foram conhecer a Laíse pivô dessa luta de inclusão. Quando os inspetores viram o tamanho da aluna no meio dos outros não a identificaram em princípio, ela se misturava a turma. E veio a resposta , ela será inclusa. E quando a resposta foi levada a turma, de que Laíse permaneceria na turma, que agora era “deles”, foi uma grande festa, os alunos comemoraram, como se tivessem ganhado o melhor presente do ano. E a inclusão foi completada, Laíse foi matriculada no segundo ano e permaneceu na mesma turma por dois anos. Foi percebido tanto pelos professores como pela família o crescimento no desenvolvimento dela, na interação com os colegas, na realização das atividades em grupo, na autonomia em andar pela escola e utilizar as dependências como banheiro, sem a necessidade de supervisão.

Uma inclusão que deu certo. Laíse não foi alfabetizada ainda, mas o ganho em seu desenvolvimento foi enorme. A escola já entrou com recurso dois anos seguidos para mantê-la inclusa nessa mesma instituição, que por ser uma escola classe, só aceita pela legislação, alunos até 14 anos, e ela já chegou lá com essa idade. Hoje com 16 anos, ela permanece inclusa, feliz, tratada na escola sem distinção por todos os funcionários da escola. A inclusão pode acontecer de fato se todos os profissionais envolvidos realmente se envolverem, levando em consideração o bem estar do aluno, e não somente as leis vigentes.

Gelzimar Borges


Laíse Borges e suas colegas na escola


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