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O setor de Braille da Biblioteca Pública de Belo Horizonte em Minas Gerais conta com voluntários dedicados a ler para os deficientes visuais.

A cultura não tem limites e apesar das dificuldades que a biblioteca encontra na aquisição de livros em braile, todas as pessoas com esta deficiência podem ter acesso a um bom livro de literatura e usufruir deste momento de lazer ou estudar.

Nesta edição, entrevistei, Glicélio Ramos, Coordenador do Setor de Braille, que vai nos apresentar o projeto de voluntariado e explicar como funciona este setor tão importante dentro da Biblioteca Pública.


Setor de Braille da Biblioteca Pública de Belo Horizonte - Minas Gerais

Há quanto tempo você está na coordenação do setor de Braille da Biblioteca?

Estou à frente do Setor Braille desde agosto de 2014.

O setor de Braille existe há quantos anos?

O Setor Braille foi fundado em 21 de janeiro de 1965. Portanto, já presta o serviço às pessoas com deficiência visual há 61 anos.

Por favor, nos conte sobre a iniciativa referente ao setor na Biblioteca Pública de Belo Horizonte?

O Setor Braille foi pensado e inaugurado com o intuito de oferecer acesso irrestrito à cultura aos moradores com deficiência visual da capital e do interior do Estado de Minas Gerais. Foi por meio desta iniciativa que diversas pessoas com deficiência visual tiveram a oportunidade de cursar o ensino superior, tomar posse em concursos públicos, se inserir no mercado de trabalho e, o mais importante, ter acesso a livros literários de boa qualidade.

A aquisição dos livros é difícil? Existem muitas obras em Braille no Brasil?

Adquirir um livro em Braille no nosso país, é quase que impossível, salvo livros infantis. As editoras, apesar de serem obrigadas por lei a oferecer livros em formatos acessíveis às pessoas com deficiência visual, quase nunca o fazem. Não se consegue comprar um livro em Braille no mercado, como acontece com os livros disponíveis às pessoas sem deficiência. Existem algumas empresas que oferecem a transcrição do livro em tinta para o Braille. Porém, este serviço, é muito dispendioso. Só a título de ilustração: um livro em tinta de 250 páginas, para ser transcrito para o Sistema Braille, terá o custo de aproximadamente R$800,00 a R$1000,00. As obras em Braille disponíveis às pessoas com deficiência visual, se levar em conta a quantidade comercializada em tinta, é irrisória.

A maioria do público é formada por estudantes de ensino médio, ensino superior ou leitores que apenas querem um momento de leitura.

O público que frequenta o Setor Braille é bastante heterogêneo, com uma faixa etária entre 12 e 60 anos. Este público busca no setor, o atendimento de suas necessidades que vão desde o acesso à literatura adaptada às pessoas com deficiência visual, até a procura por materiais e voluntários que lhes auxiliem na busca pelo conhecimento, com objetivos distintos: aprovação em concursos públicos, estudos para fins acadêmicos (ensino fundamental, médio, superior e especialização).


Biblioteca Pública de Belo Horizonte - Minas Gerais

Existem parcerias com alguma empresa para aquisição dos livros?

Existe uma instituição filantrópica, situada no Estado de São Paulo, chamada Fundação Dorina Nowill para Cegos, que produz e distribui gratuitamente livros em Braille e em áudio para o Brasil inteiro e o Setor Braille figura na lista de contemplados dessa instituição. Além disso, o Setor, de forma ainda amadora, produz alguns livros em Braille e audiolivros.

E quanto ao Projeto de Voluntariado Leitura para Cegos? Há quanto tempo existe este projeto? Quem idealizou este projeto?

O serviço de voluntariado do Setor Braille existe, praticamente, desde a sua fundação. O projeto foi idealizado pelo profissional que estava à frente do setor naquela época e colocado em prática a partir de 1969.

Os voluntários trabalham com leitura viva voz, transcrições de textos e gravações de audiolivros. Devido à falta de bibliografias adaptadas para este tipo de público, foi implantado no Setor um grupo de voluntariado capaz de suprir a demanda por livros literários e materiais científicos com um trabalho de gravação de audiolivros e de transcrição de livros em Braille. E é por meio destes serviços, que as pessoas com deficiência visual, que frequentam o Setor Braille, tem conseguido acessar a literatura e a informação de maneira ágil e satisfatória. O trabalho, hoje consolidado pelos voluntários, consiste na Leitura viva voz, gravação de audiolivros em estúdio próprio e na preparação dos arquivos de obras selecionadas para a transcrição de livros para o Braille.

Geralmente quais as obras ou matérias mais procuradas?

No Setor Braille, devido à quantidade pequena do acervo, não existe obra mais procurada, existe obra mais lida. O nosso público não vem ao Setor à procura de um título específico, porque sabe da dificuldade de aquisição de livros em Braille enfrentado pelo Setor, ele busca o que chegou.

Nosso acervo, apesar de ser pequeno, contém muitos clássicos da literatura brasileira e estrangeira, contos, poesias, livros infantojuvenis e alguns livros didáticos. Em relação à leitura com os voluntários, a responsabilidade de trazer o material, fica a cargo do usuário com deficiência visual. Além disso, o Braille possui alguns materiais de apoio a esse tipo de estudo.


Biblioteca Pública de Belo Horizonte - Minas Gerais

Como é feita a seleção dos voluntários? Há algum critério específico? Qual o horário de funcionamento do setor de Braille?

A escolha do voluntário não obedece nenhum critério específico. Basta à pessoa interessada ter um tempo sobrando e querer doá-lo ao Setor. As únicas solicitações são: ter boa dicção e leitura fluente para que se torne mais fácil o entendimento, por parte do usuário com deficiência visual, do conteúdo lido e que a pessoa interessada tenha compromisso para que sejam evitados os chamados “bolos”. Para se tornar um voluntário é necessário comparecer pessoalmente ao Setor e preencher formulário próprio. Os voluntários são convidados a contribuir de acordo com a disponibilidade de tempo de cada um e de acordo também com a demanda dos nossos usuários e no período de funcionamento do Setor, que é de segunda a sexta feira das 9h às 19h e aos sábados das 9h às 12h. Para se cadastrar, por favor, compareça ao 2º andar da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, Praça da Liberdade, 21 Funcionários, no horário de 8h às 18h, de segunda a sexta e de 8h as 12h, aos sábados.


Glicélio Ramos Silva é especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental e graduado em Administração Pública pela Escola de Governo Professor Paulo Neves de Carvalho da Fundação João Pinheiro. Já atuou como responsável pela transcrição de livros para o Sistema Braille e como professor do curso de Leitura e Escrita Braille, ambos pelo Setor Braille da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa. Atualmente, atua como coordenador do Setor de Braille.

Lícia Lima

Revisão: Adriana Buzeliin

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