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SE NÃO PODEMOS CONTAR COM O ESTADO, CONTEMOS PELO MENOS UNS COM OS OUTROS!


Neste mês, fui golpeada pela epidemia da gripe H1N1 e entrei para mais uma estatística no Brasil. Morando no Rio de Janeiro há pouco mais de três meses, ainda não tenho plano de saúde e o jeito foi enfrentar o sistema público. Os sintomas vieram de repente e evoluíram de forma rápida, sem me deixar opção de pensar em correr ou não para o posto de saúde mais próximo.

Já tinha lido em jornais que o sistema público de saúde do Rio de Janeiro é um dos piores do País, e por duas vezes, em uma semana, senti na pele essa deficiência. O caos começa na desorganização das unidades, há muito paciente para poucos (poucos mesmo) médicos e enfermeiros, espaço insuficiente... E tudo isso gera um estresse muito grande nos funcionários. Passei praticamente dois dias inteiros no posto de saúde, fazendo exames. E vi profissionais enlouquecidos tentando atender à demanda que, todos os dias, depende deles para acabar.

Realmente é uma situação muito triste e desgastante, mas um episódio me fez perceber que se tivermos generosidade uns com os outros o ofício e a rotina podem ficar mais leves nos postos de saúde.

Nos postos de saúde aqui, só pode ter acompanhante pacientes abaixo de 18 anos ou acima de 65, ou quem está praticamente morrendo. Portanto, como não me encaixada em nenhuma das situações, tive que ficar sozinha. Após passar pelo atendimento médico, fui encaminhada para fazer o hemograma. O problema é que nos postos de saúde o paciente tem que ser bem intuitivo e descolado, senão fica ao léu, com cara de paisagem pelos corredores.

Com algum sacrifício, consegui achar a sala de coleta de sangue. A fila estava imensa e para saber a minha vez, tive que sair perguntando quem era o último da ordem. Arrumei uma cadeira e fiquei sentada lá, esperando. Em certo momento, percebi que as pessoas estavam ali para tomar remédio na veia e fiquei na dúvida se estava mesmo no local certo. Com medo de enfrentar aquela fila toda para descobrir que não era ali que se colhia o sangue somente quando chegasse a minha vez, fui com jeitinho perguntar à enfermeira se eu, realmente, não estava equivocada.

Não sei se foi meu tom de voz baixo ou se eu vestia a capa de invisibilidade do Harry Potter, mas sei que fiz três vezes a pergunta à enfermeira e ela simplesmente me ignorou. Foi como se eu não tivesse perguntado nada mesmo, como se eu nem estivesse ali. Ela nem olhou para o lado, continuou a mexer nos equipamentos que manuseava e saiu. E eu fiquei lá com cara de tacho. Sem entender aquela cena pela qual havia acabado de passar. A enfermeira não apenas me negou a informação, ela me negou tudo, um olhar, uma confirmação da minha presença na frente dela. Fiquei pensando se ela, de repente, não tinha me visto ou ouvido. Mas era impossível, pois eu parei na frente dela. Enfim, me convenci de que era isso mesmo e voltei pro meu lugar de espera, rezando para eu estivesse no lugar de colher sangue mesmo.

Quando chegou minha vez, já comecei a suar frio. Morro de medo de tirar sangue e comecei a rezar para que a enfermeira tivesse compaixão com minhas veias, que são difíceis de pegar. Juntei as minhas forças e abri um sorriso. Talvez fosse de puro nervosismo, mas pensei também que amargar a expressão não me ajudaria naquele momento. Pelo contrário.

Então, confessei que tinha medo de agulhas e pedi à enfermeira que fosse com cuidado. Fechei os olhos, estendi o braço e virei o rosto. Em um segundo ela estava tirando o sangue e eu não senti nada. Foi, então, que eu me virei para ela e agradeci pela delicadeza, disse que tinha mãos de fada. Imediatamente ela sorriu pra mim e também me agradeceu pelo elogio. E quase que num desabafo, ela disse que a rotina é pesada e nem sempre conseguem fazer o melhor.

E eu saí de lá pensando nesse peso que os profissionais da saúde carregam todos os dias em um sistema público sucateado, defasado, com migalhas para atender à população adoecida. E muitas vezes ainda são maltratados, julgados, culpados, penalizados. Não é fácil para nenhum lado. Pois estar doente, precisando de atendimento digno e não ter, também é complicado e tira o equilíbrio emocional de qualquer cidadão de bem.

Por isso, saí do poso de saúde certa de que, em todos os lugares, é preciso generosidade e amor por parte das pessoas, independente de que lado esteja. Cordialidade e compreensão também são ingredientes fundamentais para a boa convivência. Já que não podemos contar com o Estado, contemos uns com os outros pelo menos. Quem sabe, assim, a vida fica mais leve e saborosa.



Mariana Monge é jornalista, escritora, blogueira, letrista... Me resumo em frases, aspas, parágrafos e histórias (minhas e dos outros). Fora isso, tenho vários talentos ainda desabrochando em mim e sempre me permito ser algo novo. Três-lagoense por natureza, campo-grandense por criação, mineira por encantamento e carioca por puro deslumbre.

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