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POKÉMON GO ou a captura da liberdade.


Há dias, vimos assistindo o estresse se instaurando, absolutamente proporcional à alegria que se constitui, quando o assunto é a caça aos Pokémons. As crianças, os adolescentes e os adultos que privilegiam sua criança interior, como os que se querem "up to date", procurando manter-se no diálogo com as novas gerações, como outros bobos mesmo - bobos não nos faltam - caminham juntos pelas ruas e praças e parques nesta captura, divertindo-se com o nada que parece, aos olhos que apenas veem, uma bobagem. A crítica severa está na leitura destes jogadores como se hordas de alienados na virtualidade, enquanto a realidade oferece tanto ao enfrentamento.

Sendo verdade isto e como política de redução de danos no combate às drogas, nada como uma alienação saudável, então. Afinal, ninguém bebe ou consome nada enquanto caça seus pokémons ou precisa fazê-lo, tamanha endorfina experimenta pelo prazer que vivencia naquilo que outros julgam ignóbil. Experimentamos, cada um a seu tempo, outras formas de alhearmo-nos, ao arrepio de alguém ou mesmo outras ainda, socialmente autorizadas, seja desde o esporte ou a torcida, o fanatismo ou a medicação prescrita porque é necessário que sejamos sempre ditos “normais”. Ledo engano se o “normótico” agora já é chancela patológica, junto a neuróticos e psicóticos, tamanha fissura tenha com a normalidade e a medida do outro como louco a partir de si.


Convencimentos à parte, de fato, o que incomoda mesmo é ver o nível de imputação moral que nos autorizamos a promover, a partir de nossas consciências particulares de certo e errado que se manifestam incomodadas com o evento e, a partir de discursos autocráticos intentarmos reprimir a expressão de subjetividades distintas das nossas. Grosseria excludente, sofisticada na virulência do texto: “ridículo” – ouve a criança que se curva ao peso da palavra. O jovem, de toda forma, manda às favas. O adulto se explica: há sempre uma forma. O caso é que as gerações e os valores adstritos a elas chegam sem pedir licença e se apresentam ao incômodo ético. Todo ridículo, sob ponto de vista particular, sempre instaurou o fim dos tempos: minissaia, biquíni, calça jeans, o rock (do diabo)... O “Éthos”, pois, o mundo que habitamos, nossa morada comum, tem de adequar-se à presença de todos quantos sejamos, sob pena de uma inculpação autoritária.

Ademais, ainda, há nuances do jogo em si que passam despercebidos para a maioria, dada ao vício de ceder apenas à percepção oftálmica (isto quando não se entrega a premonições), porque não se apercebe do que se oferece a ser enxergado e, sobretudo, exige sensibilidade ética, ou seja, a percepção da presença de outros, para além de nós mesmos, e daqueles com que os diferentes se afinam. A verdade é que enquanto uns acham e se perdem nisto, outros mais se encontram e disto há narrativas inteiras. A pontuação aqui, exemplificativamente, diz respeito ao mundo dos aspies (síndrome de asperger) que, para capturar pokémons, tem saído de casa e interagido com outras crianças e com sua comunidade. Elas não são crianças que saem para brincar, normalmente, mas pelo jogo tem se comunicado mais, entabulando conversas sobre criaturas e pokébolas. Releve-se, aqui, alguns aspies, apenas para evitar-se o cometimento de injustiças, quando a humildade se tem a dar ao reconhecimento da grandeza alheia e não, a partir da própria medida ignorante de tanto, por ignorar mais, tomar estas pessoas como se exigentes de olhar caritativo apenas porque, obviamente, socialmente desadaptados: Albert Einstein, Bill Gates, Van Gogh, Tim Burton, Keanu Reaves e Madame Curie, dentre mais. Einstein, certamente, ao temer da tecnologia a piora da interação humana, certamente, estava mais se referindo ao homem por detrás dela do que a ela mesma. Mas, falemos a verdade, ser adaptado ao que ora se oferta é que vem atestando diagnósticos graves de caráter e personalidade.

Pokémon Go, ainda, traz outra delicadeza à compreensão do jogo. Crianças com autismo e hiperlexia, relacionada com dificuldades na linguagem verbal, tem encontrado, através do passatempo, como passar tempo interagindo com outras crianças. Certo é que o jogo constrói afinidades entre as crianças e os adolescentes, por mais diferentes que sejam entre si, já que oferece a eles algo em comum para fazer juntos, e, estando tão focados em caçar pokémons, concentradas mais em encontrá-los do que no julgamento e na análise do comportamento um do outro, acolhem-se mutuamente. Ninguém ensina isto de verdade mesmo. As próprias escolas particulares, aqui em Minas Gerais, tem-se recusado a incluir, através de embate judicial, em suas salas de aula, crianças e adolescentes com deficiência, sem se aperceber que são elas mesmas que tem limitações intelectivas para dialogar com seu tempo.

As histórias dos Pokémons são muitas e passam pela fábula, pela fantasia e por um mundo paralelo em que meninos e meninas são mestres enquanto com elas resistimos a aprender, mesmo certos de que a perpetuidade de nossas convicções nos conduza ao fim. Na medida em que o Pokémon Go promove uma experiência pontual de coexistência fraterna, onde a igualdade transcende das diferenças, vamos capturando a liberdade, esta, sobretudo, de poder ser quem somos sendo, portanto, humanos, uns através dos outros.

Queremos nos importar com alguma coisa mesmo séria?

Cuidemos de Bubassaltos, de passeio e Congresso, estes pokémons da realidade que inibem brincadeiras e sobriedades e, seriamente, deixemos divertir para ver se as crianças e os adolescentes aprendem brincando porque, de maduros, o que vamos mesmo é caindo podres.

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Maria Inês Chaves de Andrade é mestre em Ciências Jurídico-Internacionais pela Faculdade de Direito na Universidade de Lisboa/Portugal; bolsista do DAAD na Ludwig-Maximilians Universität em Munique/Alemanha; doutora em Filosofia do Direito pela FDUFMG. Tem pós-graduação em Cinema pelo IEC/PUC. É autora na área de literatura jurídica, literatura infantil, romance e poesia. Vice-presidente da ONG “O Proação”, em Belo Horizonte, sob a convicção de que “ser humano precisa ser humano”, reconhece, no trabalho sem fins lucrativos - não caritativo, perceba-se - o germe ínsito de um capitalismo selvagem que rui a olhos vistos, sejam os lucros adstritos a valores sem preço e de desmedida de riquezas interiores, recursos humanos, verdadeiramente, dos quais já não nos podemos abster por abastança e necessidade.

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