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A "NAZIZAÇÃO" DA SOCIEDADE BRASILEIRA.


Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, esperava-se, definitivamente, a superação do Nazismo. Mas, de uma forma ou de outra, as ideias de hierarquia racial e darwinismo social, na expectativa de quem, afinal, merecia fazer parte do cômputo de um povo, perpetraram, quando vemos, ainda e cotidianamente, negros, deficientes físicos, deficientes mentais e homossexuais continuar a viver em “campos de concentração”, concentrados à parte, sendo paulatinamente dizimados ou apartados de nossa sociedade, numa contínua luta pela eficácia de direitos humanos, aos que hoje, seja pela sedimentação racional da ideia de igualdade, têm, também, por prerrogativa. Não dá para não perceber a pretensão justificada de políticas públicas que não fazem distinção entre os homens para, dizendo-os iguais, desprezarem suas diferenças, sem relevar o fato de que são as diferenças a nossa igualdade, e os deixarem morrer ou ao largo, sem a acolhida do que constitucional e filosoficamente resta positivado e definido. Obviamente, este nazismo subliminar vem promovendo a desacolhida de milhões de brasileiros, deixando viver os “mais fortes”, dando guarida a que esta força promova a necessidade de uma hierarquização verticalizada potente entre os homens – para parecerem mais vigorosos - e tanto que o poder, em sua decomposição conceitual, já autoriza o enfrentamento, de igual por igual, entre homem e Suprema Corte, enquanto, noutro giro, o crime famélico nem serve de atenuante ao flanelinha. A contrapor-se, a violência que cabe ao bruto, sem a sofisticação da caneta e do paraíso fiscal. Todos fortes! A aparência afasta-se diametralmente da essência e o bicho-homem suplanta o ser humano sem constrangimento. O homem grande aniquila a possibilidade do grande homem. A mensuração do sucesso continua sendo a de qualquer bicho, seja comer, beber, copular, morar e criar a prole, explicando a necessidade de sofisticar-se estas providências na deglutição do que for preciso. Mas, as justificativas habitam as dimensões intelectual e espiritual, onde transita o ser humano do homem, e estas, às escâncaras, não participam da prudência e da presciência das pessoas para o acautelamento necessário com relação ao futuro. Os gases, este fluido político compressível nas estruturas de poder, em que as interações moleculares e de ideias são bastante fracas e cuja agitação térmica, dado o calor das relações é permanente e notável, sem qualquer organização espacial, vêm sufocando nossa humanidade em câmaras que insistimos apor outros, estes que cremos distantes de nós, os tais próximos no Natal. Mas, metáfora necessária, que fique claro. Estamos todos sob o jugo de um regime que “naziza” nossa existência, participando de uma estrutura social que nos quer explicar o porquê de deixar sucumbir os homens, sem se aperceber da angústia em que vivemos por não nos reconhecer humanos, porque o somos e queremos sê-lo. Sequer através da religião, que nos proclama imagem e semelhança de Deus, conseguimos saber de nossa essência humana alienada Nele, seja a promoção de todo tipo de preconceitos e ódios, quando a Bíblia só aparta dos cuidados do Pai, os falsos profetas e os mercadores da fé. Estamos inseguros por temermos a desumanidade “nazística” que ora propalamos e nos pode achegar, porque já há muito Bertold Brecht (1898-1956) nos legou à consciência: "primeiro levaram os negros, mas não me importei com isso. Eu não era negro. Em seguida levaram alguns operários, mas não me importei com isso. Eu também não era operário. Depois prenderam os miseráveis, mas não me importei com isso porque eu não sou miserável. Depois agarraram uns desempregados, mas como tenho meu emprego, também não me importei. Agora estão me levando, mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo." Pois, parafraseando Vinícius de Morais, sou a branca mais negra, a de compleição plena mais deficiente física, a normal mais louca e a heterossexual mais gay deste país.


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Maria Inês Chaves de Andrade é mestre em Ciências Jurídico-Internacionais pela Faculdade de Direito na Universidade de Lisboa/Portugal; bolsista do DAAD na Ludwig-Maximilians Universität em Munique/Alemanha; doutora em Filosofia do Direito pela FDUFMG. Tem pós-graduação em Cinema pelo IEC/PUC. É autora na área de literatura jurídica, literatura infantil, romance e poesia. Vice-presidente da ONG “O Proação”, em Belo Horizonte, sob a convicção de que “ser humano precisa ser humano”, reconhece, no trabalho sem fins lucrativos - não caritativo, perceba-se - o germe ínsito de um capitalismo selvagem que rui a olhos vistos, sejam os lucros adstritos a valores sem preço e de desmedida de riquezas interiores, recursos humanos, verdadeiramente, dos quais já não nos podemos abster por abastança e necessidade.

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