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O FRATERNALISMO ECONÔMICO.


Tenho acompanhado a agonia do capitalismo, seja o quão escroque se revelou em Davos, tendo piorado em muito desde a última mensuração, proporcional mesmo a degenerescência social que se escancara indecente.

Fora desta política de torcidas partidárias, conscientes de que é preciso reunir forças e desvencilhando-nos da posição de doutores em diagnósticos de toda patogenia gravíssima que nos acomete, ou de profetas na propalação de prognósticos apocalípticos, o fato é que temos de assumir uma posição profilática de enfrentamento dos problemas que todo o planeta ostenta. Precisamos construir uma política com ênfase na criatividade, em tempos de incerteza. Ora, já predisse que a fraternidade é um direito fundamental dado que fundamenta mesmo todos os direitos. O fato é que agora precisamos efetivamente de ações que confiram sentido prático à minha tese. A dimensão do ser humano que hoje demanda atendimento se estende, inescapavelmente, para além da do homem apenas. Exige do Estado que não se restrinja somente à função coercitiva de garantia da ordem e do jogo de interesses. A saída para este imbróglio - já nos achegamos aí à consciência – de toda forma, não é um socialismo marxista que requer a luta de classes, dado que esta não mais se justifica, vez que os interesses já não são contrários. A solução é racional e acolhe a organização da produção de bens sob a lógica do mercado, quando as implicações do processo social de produção assimilam a ideia de que o ser humano deve ser humano e só em relação ao outro assim se pode reconhecer, sendo.

Nesta perspectiva, imbuídos da percepção de que se faz necessária a responsabilização social das empresas e dos partícipes do mercado, precisamos estabelecer parcerias com a iniciativa privada, atuando para a melhoria das condições em que vivem os cidadãos do mundo, através da disponibilização de recursos por uma miríade de fundações que há para tanto, infinitas organizações sem fins lucrativos e igrejas seguras da necessidade de uma fé com obras, mais um elenco de pessoas com sanha em ações caritativas.

O fato é que já estamos cansados deste embate que, ainda, tantos insistem por aí em promover, opondo-se, de um lado, os que creem que a solução provém do fortalecimento do capitalismo selvagem, como se este já não se tenha degenerado o suficiente, conforme expressam as estatísticas, indicando que chegamos ao ápice da exploração do homem pelo homem; e de outro, os que proclamam como fórmula ideal um socialismo marxista, com estribo na crença, ainda, de que o motor da história continua sendo o conflito de classes e nos indispondo uns com os outros, na primária inconsistência entre mortadelas e coxinhas, trauma de iogurte em prateleira de queijo prato enquanto talhamos todos sob o mesmo levedo putrefato. Qualquer aposta neste estiramento é extemporânea e capenga. A razão humana reconhece a inadequação da deglutição do Outro para a satisfação de apetites econômico-financeiros.

Ademais, sustenta-se a tese de que as lutas de classes não mais se justificam, porquanto a atuação revolucionária se volta não mais para a conquista de direitos, mas para a efetivação de todos os direitos já positivados. A aparência que se observa na divisão da sociedade de homens em classes não compromete, de modo algum, a essência humana de se manifestar, mas, contrariamente, potencializa essa essência na humanidade comum a todos.

Inscreve-se, então, o fraternalismo como síntese entre o capitalismo e o socialismo, requerendo sujeitos de história, no chamamento de todos para ações concretas de intervenção e responsabilização social, concitando empresas cidadãs e toda a sociedade a participar de uma nova organização política.


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Maria Inês Chaves de Andrade é mestre em Ciências Jurídico-Internacionais pela Faculdade de Direito na Universidade de Lisboa/Portugal; bolsista do DAAD na Ludwig-Maximilians Universität em Munique/Alemanha; doutora em Filosofia do Direito pela FDUFMG. Tem pós-graduação em Cinema pelo IEC/PUC. É autora na área de literatura jurídica, literatura infantil, romance e poesia. Vice-presidente da ONG “O Proação”, em Belo Horizonte, sob a convicção de que “ser humano precisa ser humano”, reconhece, no trabalho sem fins lucrativos - não caritativo, perceba-se - o germe ínsito de um capitalismo selvagem que rui a olhos vistos, sejam os lucros adstritos a valores sem preço e de desmedida de riquezas interiores, recursos humanos, verdadeiramente, dos quais já não nos podemos abster por abastança e necessidade.

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