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O CISCO E A TRAVE.


Uma criança de uns 8 anos e sua jovem mãe estão sentados numa sala de espera do que parece ser uma clínica.

O menino está visivelmente ansioso, irritado. Bate os pés, sacode os braços, bufa. Parece querer ir embora. A mãe, conformada. Ele levanta num ímpeto, sai. É contido e levado de volta para a cadeira. Um instante mais tarde, corre. A mãe o busca outra vez. O garoto volta a demonstrar nervosismo. Tenta mais uma vez. Reage. Bate. A mãe passiva, sem oposição. Parece acostumada. Passam-se alguns segundos. Nova tentativa, sem sucesso. Puxa o cabelo, é contido. Leva um tapa. Agarra de novo o cabelo da mãe, bate mais, demonstra raiva. O vídeo acaba.

450.000 compartilhamentos indignados com a complacência da mãe e com a falta de educação do filho. No meio de um deles um desabafo de outra mãe, que se identifica: ”O meu filho também é assim, mas não é mal educado. Ele é autista.”

O Autismo consiste numa alteração cerebral que põe em causa a capacidade da pessoa se comunicar, de estabelecer relacionamentos e de responder, de modo apropriado, ao que lhe é pedido.

A grande maioria das crianças autistas são aparentemente normais. Contudo, o seu comportamento é totalmente diferente do das crianças típicas.

É importante ter em mente que tal comportamento tem uma razão e que pode existir uma série de razões para isso.

Estes podem incluir dificuldade de processamento de informações, tempo livre, o excesso de sensibilidade (hiper) ou sub-sensibilidade (hipo) para algo, uma mudança na rotina ou razões físicas como mal-estar, cansaço ou fome.

Não ser capaz de comunicar estas dificuldades pode levar à ansiedade, raiva e frustração, e então a uma explosão de comportamento desafiador.

Pode ser que a criança do vídeo também seja autista. Pode ser que não. Pode ser que esteja passando por um momento traumático. Pode ser que não. Pode ser que a mulher um dia oprimida passou a ser permissiva demais. Pode ser que não...

Mas a internet, não entende, não perdoa. Não vê o outro lado. Não sabe que toda história tem, no mínimo, duas partes...

Pessoas reagem fazendo grandes textos dizendo, "ah se fosse meu filho." São tantos dedos apontados, tanta moral discutida que pensamos: com certeza são pais perfeitos.

E são? Será que são?

Tenho muito a aprender, mas se tem algo que tenho me esforçado em especial é: não julgar. Por mais que meus olhos vejam e que meus ouvidos ouçam, não sei o que de fato motivou tal ação, ou reação. Mais prudente calar.

Olhar, compartilhar, apontar, criticar, condenar as ações que vemos na mídia, seus atores (ou cantores), pessoas, enfim... tem que haver uma medida.

Aprendi, que a medida é a lei. Quem a descumpre, que enfrente as consequências, tal qual está ordenada. No direito há institutos com certeza mais hábeis que eu, mais capazes que eu e mais justos que eu. Afinal não existe JUSTIÇA sem o Devido Processo legal, o Contraditório e a Ampla defesa.

Aqui me lembro do querido Chico Xavier. Ele com doçura e sabedoria de sempre diz: Aos outros dou o direito de ser como são. A mim dou o dever de ser a cada dia melhor.

Aprendamos com o Chico!


http://apoioautista.blueserver.com.br/comportamentodesafiadornosautistas


Cynthia Prata Abi-Habib é formada em Direito, Pós Graduada em Direito Educacional. Mãe de autista de alto funcionamento é membro e uma das fundadoras da AsaTea - MG (Associação da Síndrome de Asperger no Transtorno do Espectro do Autismo de Minas Gerais) e luta pela inclusão do jovem autista de alto funcionamento no ensino superior/profissionalizante e no mercado de trabalho através de ações de conscientização e eventos.

https://www.facebook.com/Asa-Tea-MG-Associacao-da-Sindrome-de-Asperger

clprata@yahoo.com.br

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