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OLHOS ABERTOS


Eu cresci homofóbico e eu cresci fazendo bullying. Também tive momentos, e não foram poucos, de racismo misoginia. Naquela época era normal e pareceria até estranho não agir dessa forma.

A questão da homossexualidade era vista por mim e por quase todos os meus amigos como algo estranho. Ser chamado de “veado” competia com ser chamado de “filho da puta”.

As piadas com os gays estavam na televisão, vinham de nossos pais e colegas e, pra dizer a verdade, quase não conhecíamos homossexuais. Claro que havia, por exemplo, o cabelereiro gay, que tratávamos como uma excentricidade, um personagem raro que causava estranheza.

O tempo foi passando e eu comecei a conviver com homossexuais, primeiramente através da minha mãe, que tinha muito contato com gays. Aos poucos, muito lentamente, fui percebendo que essas não eram pessoas afetadas, sem profundidade, não eram apenas personagens exóticos que circulavam a esmo enquanto nós vivíamos.

Comecei a notar que pagavam contas, batiam ponto, se decepcionavam, eram amigos, discordavam, concordavam, enfim, faziam tudo como eu.

A estranheza ia diminuindo, mas pra mim eles estavam bem como pessoas que eu encontrava de vez em quando. Eles lá e eu cá.

Só um bom tempo depois, quando comecei a ter amigos homossexuais e a realmente conviver com eles, é que percebi que a orientação sexual era como a cor do cabelo: não era credencial para mais nada a não ser a orientação sexual em si.

Existem gays e heteros chatos, negros e brancos engraçados, gordos e magros cruéis, altos e baixos com um coração de ouro. O que importa é a pessoa e não quem ela ama ou deixa de amar, com quem ela transa ou deixa de transar.

Ir contra esse direito da busca pela felicidade é ir contra o ser humano. É abrir espaço para que amanhã os perseguidos sejam os evangélicos ou os turcos ou os homens de cabelos cacheados.

Eu considero essa visão que vai contra os direitos e o respeito aos homossexuais tão estúpida quanto era há alguns anos questionar, com base na lei, o direito dos negros à liberdade e à igualdade. Mas ela existe, como existiu a legislação racista, e precisa ser combatida.

Eu, que durante muito tempo achei que não tinha problema criticar, menosprezar ou humilhar alguém por ser gay, estou aprendendo o quanto isso é idiota. Eu que achava que minhas piadas não feriam e que se ferissem, foda-se, penso um pouco mais antes de falar.

Ainda sou homofóbico em medidas que não percebo, racista em medidas que não percebo, machista em medidas que não percebo e faço bullying em medidas que não percebo. Se você procurar nas coisas que disse e fiz, mesmo recentemente, certamente vai achar idiotices que me deixariam com vergonha e me colocariam ao lado de quem eu hoje sou contra.

Mas pelo menos agora tento ser consciente e pensar no outro ser humano que é tão sensível, falível, forte, estúpido e genial quanto eu e que simplesmente faz amor com alguém do mesmo sexo.

É que eu acho que a homofobia acaba primeiro na gente. E sei que ainda estou longe, mas não sigo mais de olhos fechados.



Maurilo Andreas é escritor formado em publicidade, envolvido em projetos sociais e culturais, e um aprendiz da tolerância e do respeito com um longo caminho pela frente.

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