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SOBRE BATALHAS E GUERRAS.


Todo bom soldado sabe que vencer uma guerra não significa sair vitorioso de todas as batalhas. Nem sempre é possível evitar um embate, algumas batalhas não escolhemos lutar, elas nos escolhem e não temos outra escolha senão enfrentar com bravura. Outras batalhas podemos escolher, podemos simplesmente deixar passar pois não valem se ganhamos ou perdemos. E em algumas outras definitivamente não devemos nos bater. Simples assim.

Quando estiver frente a um embate se pergunte antes de entrar ou não entrar:

“vale a pena”?

“trará ganhos”?

“haverá danos”?

“se houver ganhos eles serão maiores do que o desgaste que será gerado”?

“vale a pena o embate”?

Era uma tarde de sábado como qualquer outra. Tediosa como qualquer outra. Estávamos no shopping mas eu preferia estar em casa.

Mas Pedro e o pai queriam sair, queriam passear, respirar novos ares, pois bem, ali estávamos a respirar os ares de um shopping lotado e com o ar condicionado no mínimo. Era um shopping que eu particularmente detestava pois a logística dele não tinha nenhuma lógica. Um grande vão dividia seus extremos e as escadas rolantes eram distantes uma das outras então para subir ou descer um andar era preciso caminhar até o outro extremo. Devem ter projetado isso para nos obrigar a passar na frente de todas as lojas, suponho.

Estávamos no primeiro andar quando Pedro, então com cinco anos e começando a adquirir a fala, pediu pipoca. Só aquele pedido já era motivo para comemorar, pois foi espontâneo, ele estava finalmente conseguindo comunicar o que queria.

Quando olho para o lado o pai já faz uma cara de desânimo pois o pipoqueiro ficava no piso do terceiro andar então a maratona do sobe e desce de escadas era inevitável.

O carrinho de pipocas era bem sugestivo e vendia também aqueles pirulitos coloridos enormes que têm mais estética que sabor.

Eu quero pirulito. – disse Pedro.

“Maravilha, ele mudou de ideia, olha aí a quebra de rotina, que progresso” – pensei

Não, você me fez vir ate aqui para comer pipoca, você vai comer pipoca. – responde o pai.

Não! Eu quero pirulito! – retruca Pedro.

Você não pode mudar de ideia toda hora, você não vai comprar pirulito, vai comprar pipoca! – argumentou ainda o pai.

A essa altura meu coração já estava gelado. Eu e meu marido temos um acordo, nunca interferir na educação um do outro na frente das crianças, isso tira a autoridade e causa confusão nos filhos. O chamei de lado e expliquei que era melhor dar o pirulito, argumentando sobre a flexibilidade que Pedro estava demonstrando e etc... Não adiantou. Me dei por vencida, daquele momento em diante cabia a ele conduzir os rumos da batalha na guerra que escolheu travar: pirulito, pipoca, pirulito, pipoca.

Venceu a pipoca.

Com a pipoca em mãos e olhos flamejantes de raiva Pedro ia caminhando ao nosso lado em silêncio. Eu conhecia aquele silêncio. Mais alguns passos e o saco de pipocas foi arremessado longe. Tinha pipoca pra tudo quanto é lado. Olhei para o lado e meu marido estava com o rosto vermelho à frente uma plateia enorme com espectadores interessadíssimos. Antes que outro espetáculo continuasse naquele circo já armado me antecipei: “Pague o estacionamento que vamos te esperar no carro.”

Fomos para o carro. O show acabou e a plateia se desfez.

E por falar em espetáculos, para ganhar uma guerra devemos ter a sabedoria do bom soldado, escolher em quais batalhas vale a pena lutar para não perder a guerra.



Michelle Malab foi diagnosticada com Síndrome de Asperger já na fase adulta, anos após ter tido o diagnóstico de seu filho Pedro. Com o filho diagnosticado, deparando-se com a falta de tratamentos eficazes e poucos profissionais capacitados na área começou a estudar sobre a síndrome, tornando-se co-terapeuta no tratamento do filho. Durante anos de estudo passou administrar palestras sobre autismo e organizar seminários sobre o tema, trazendo os melhores métodos e tratamentos que visam dar às pessoas com autismo as ferramentas necessárias para seu desenvolvimento. Autora do livro Na Montanha Russa - Vivendo a maternidade no Autismo. É militante na luta pelos Direitos das Pessoas com Autismo e, em particular, no que se refere a inclusão escolar efetiva e humanizada. O autismo do filho acabou por lhe trazer também um conhecimento sobre si mesma.

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