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O HOMEM MARROM


Confesso ter visto muita coisa em meus 21 anos de jornalismo. Já dormi embaixo de viaduto, encarei madrugadas com os sem-teto da antiga Vila Pinho e convivi com personagens da cracolândia de Belo Horizonte, localizada na Lagoinha, durante quase um ano. Mas nada me aflige mais do que o Homem Marrom. É como chamo o andarilho desconhecido que percorre, dia após dia, estradas e ruas da cidade, concentrando-se especialmente na região Sul, onde eu moro.

Trata-se de um senhor de cabelos desgrenhados, com farrapos de roupa completamente impregnados de uma poeira marrom, que atribuo ao pó de minério de nossas minas gerais. Para quem tiver olhos para ver, o Homem Marrom pode ser reconhecido ao longe, lembrando uma pedra ou mancha no horizonte, que, nessa hora, deixa de ser belo.

Pelo menos para mim, a caminhada infinita do Homem Marrom causa aflição. Ele me parece personalizar a exclusão social. É o oposto do que se propõe a Tendência Inclusiva, que segue em frente com a gigantesca missão de abraçar as diferenças. Talvez eu esteja exercendo um preconceito às avessas ao tentar incluir o Homem Marrom na sociedade dita civilizada, palco de nababescos mensalões, poderes corrompidos e uma enorme indiferença em relação aos menos favorecidos.

Ele não se interessa por blá blá blás nem tratativas. Ele só quer andar e andar, arrastando nas costas o fardo da loucura ou do abandono. Confesso que já tentei, por diversas vezes, levar na conversa o Homem Marrom, desvendar o ser humano encoberto pela poeira. Ele, no entanto, sempre se negou a dialogar comigo. Na verdade, deixou bem clara sua posição: “Saia daqui, não quero saber de repórter”.

Logo eu, que decifrei os códigos dos chamados meninos de rua, na década de 1990. Logo eu, que abordei os sem-terra no acampamento, debaixo de um sol rascante, em Ituiutaba. Logo eu, que já entrevistei Dilmas, Aécios, ministros e prefeitos. Piabas e peixes grandes. O Homem Marrom tornou-se meu maior desafio.

Compreendo que, assim como fez comigo, da mesma forma deve ter rechaçado qualquer tipo de ajuda governamental ou privada, de terceiros ou pessoas alheias. O Homem Marrom é feito de rocha. Rochas não falam. Da última vez em que ele passou, ao longo da Avenida Prudente de Morais, eu estava na porta de uma oficina mecânica, aguardando para pegar o carro. O Homem Marrom seguiu seus passos, incólume.

Acabei comentando sobre o andarilho com o mecânico Eduardo Rodrigues, de 33 anos, gerente da oficina. Ele sentia o mesmo incômodo que eu: “Também já tentei conversar com ele, outro dia mesmo. Estava dando ré e quase esbarrei nele com o carro. Queria pedir desculpas, mas desisti. Ele não parece ser uma pessoa de muita conversa, nem deu brecha para começar com um jóia e depois cumprimentar com um bom-dia”, contou.

Eduardo, o que você sente ao ver o Homem Marrom?

“Sinto que nós, humanos, deveríamos mudar nossa concepção, deixar de ter esse desleixo uns com os outros. Vejo que a minha carência é nada perto da dele, que parece devastadora. Ao olhar para ele, vejo que as pessoas poderiam se abraçar mais, cuidar mais umas das outras. Meu dia poderia ser bem melhor hoje se alguém chegasse para mim e dissesse “olha, ficou bacana seu serviço!”.

Sem ter mais o que dizer, só consegui, em poucos segundos, registrar a passagem do Homem Marrom na câmera fotográfica do celular. Ainda assim, flagrei-o de costas, preservando seu anonimato.



Sandra Kiefer é jornalista há 21 anos, recebeu prêmios importantes por redigir histórias nem sempre belas, mas que precisam ser contadas para ajudar a mudar o mundo, onde ela vive com o marido e dois filhos.

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