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NO TEMPO DA PRESSA.


Tempo um: Outro dia eu descia para a cidade (quando criança falávamos assim, descer para a cidade, subir para casa...) de carro, pela Prudente de Morais, logo atrás de um ônibus. Estava no tempo certo para chegar em uma reunião na prefeitura, tempo calculado pelo waze, mas não podia dar moleza, senão me atrasaria. Como tinha de virar à direita, mantinha-me na faixa atrás do ônibus, só tinha um ponto antes do cruzamento. “Tomara que ele não pare”, pensei, não querendo perder tempo. Quando vi a seta se acender, pensei de novo: “tomara que seja rápido, que tenha pouca gente no ponto”. Mas estava cheio, e, no meio do povo, um cadeirante. “Putz, tomara que ele não vá nesse ônibus”, pensei mais uma vez, já imaginando a demora do acionamento do elevador. Para minha contrariedade, o cadeirante se aproximou da porta do meio, onde fica o elevador. Minha impaciência começou a formigar: “Rápido, sô, funciona esse treco logo!". Aí, vi o trocador descer e dar uns chutes no elevador, que não queria funcionar. Irritado, comecei a pensar: “Tinha de acontecer isso logo agora, comigo com o tempo contado! ”

Nesse momento respirei fundo e um sentimento intenso de vergonha me inundou, qual um tsunami invadindo a praia. Meu Deus, onde que eu estava com a cabeça?! Como me irritar com uma coisa dessas?!

Como me achar prejudicado vendo uma pessoa, usando uma cadeira de rodas, tentando se locomover como qualquer outra, mas se vendo impedida e dificultada por um sistema anacrônico e tendo todos os seus direitos desrespeitados, inclusive por mim?! Pensei quantas vezes aquela cena se repetia por dia para ela, e como ela convivia com aquilo. Pensei nas pessoas dentro do ônibus, atrasadas para o trabalho, algumas tão (ou mais) irritadas quanto eu, sem, entretanto, sequer tentarem se colocar no lugar de quem usa uma cadeira de rodas. E pensei, mais envergonhado ainda, na idiotice da pressa que me fez esquecer, por segundos, toda a minha formação de vida, de respeito, de amor ao próprio.

Tempo dois: Andando no mato, perto da BR-040, em meio a um trabalho, atravessei uma valeta e, ao subir do outro lado, pisei em falso numa touceira de capim e escutei um estalo seguido de uma dor intensa no joelho. “Lascou!”, pensei. Bom, resumo da ópera, no dia seguinte eu estava de muletas, indo trabalhar. Fui de táxi e fiquei pensando, na ida, como seria se eu tivesse de ir de ônibus, o que de vez em quando eu faço.

Como eu entraria no ônibus? O elevador é para cadeirante, não é para uma pessoa de muletas. Como eu subiria a escada do ônibus, seguraria as muletas ou o pega-mão? E se o ônibus começasse a andar comigo em pé, como largar uma das muletas para segurar em algum lugar? Como apertar o botão de parada, em pé e segurando as muletas?

Nada disso é engraçado. Será que as demais pessoas pensam nisso? Como se resolve uma mulher grávida? Como uma senhora idosa, de saia e de bolsa sobe essas escadas? E uma pessoa com deficiência visual? Eu estava indo trabalhar de táxi, privilégio que grande parte das pessoas não tem.

Confesso que me senti um pouco envergonhado, pensando na condição de todos que são obrigados a sofrer essas dificuldades no dia-a-dia, pessoas com dificuldade de locomoção, com necessidades especiais, com deficiências visuais, com deficiência intelectual ou transtornos mentais, ou com sequelas ou síndromes diversas, e no pouco que o sistema de transporte lhe oferece, na prática. Pensei na “solução tabajara” do elevador dos ônibus, que funciona mal, que muitos trocadores não sabem operar, que discrimina seu usuário, que não atende à grande maioria das pessoas que têm dificuldade de subir ou descer os degraus das escadas de acesso, mas que são muito mais baratos que os ônibus de piso baixo e que permitem às administrações dizer que um percentual elevado da frota de transporte público tem acessibilidade universal.

Envergonhei-me das passarelas mal projetadas, dos tempos de semáforo nas travessias de pedestres, dimensionados para a velocidade média do andar a pé das pessoas, por si só excluindo todos aqueles que se encontram abaixo dessa média, sem precisar nomeá-los de novo, da quantidade de cruzamentos em que as pessoas a pé não têm vez para atravessar a não ser correndo riscos enormes, da falta de rebaixos de calçadas nas travessias de pedestres, do estado de conservação dessas calçadas, do tanto que a maioria delas é estreita, da falta de consideração de todos uns com os outros e principalmente com pessoas que possuem alguma condição física ou psíquica especial.

Envergonhei-me por anos de trabalho meus e de tantos colegas de profissão em que as questões de inclusão sempre foram olhadas como uma coisa acessória que, como não nos afligem diretamente, assim acabam sendo consideradas. Envergonhei-me por não entender, de fato, que a igualdade neste mundo não se faz pela luta de poucos, mas pela de todos, começando por mim mesmo.



Osias Baptista Neto é o quarto de uma família de oito filhos, nasceu em Belo Horizonte em 1949. Formou em Engenharia Elétrica e fez mestrado em Transportes. Tem três filhos e um neto. Praticamente trabalhou todo tempo em planejamento de transportes, passando pelo Plambel, Metrobel, Seplan, BHTRANS e DER/MG. Hoje é diretor da BETA Engenharia de Transportes e Arquitetura. É motociclista e adora uma estrada.

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