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MINHA HISTÓRIA


Perdi a minha audição na faixa dos seis anos, provável efeito colateral de algum remédio, na verdade, ninguém conhece a causa exata. Mas o bom é que essa perda auditiva se mantém estável, não houve mudanças desde então.

Nasci em um Brasil em que ninguém conhecia direitos dos deficientes. Aliás, nasci em um Brasil em que eu nem sabia que era deficiente. Como assim? Meu pai gostava de contar para mim a história de um amigo de infância que usava aquelas botas ortopédicas. Todo mundo colocava apelido nele e riam, e ele nunca ligou.

Corria, jogava futebol com todo mundo. Esse era o referencial dos meus pais. Nunca ligaram para a minha deficiência como algo limitador e fui educada um pouco à moda antiga. Eles tentaram que eu usasse aparelho de ouvidos, na qual, ao experimentar, prontamente arranquei. Quase morri de tanto barulho que comecei a ouvir e fiquei desorientada. Foi uma experiência bastante negativa e ninguém mais tocou no assunto. Meu irmão, quando brigava comigo, me chamava de surda, coisa que todo irmão fazia. Minha melhor amiga de infância reclamava que eu era "lerda". Muita gente reclamava que eu era "lerda". Cresci sendo "lerda", mas nunca me senti menos por isso. É aquele tipo de realidade em que você leva tantos tapas na vida, que acaba criando "calo".

Fui tentar usar aparelho aos 18 anos, por espontânea pressão da minha terapeuta. Nessa idade, surgiram os aparelhos que eram apenas interno e topei experimentar. Foi um sucesso! Mas usei só em um ouvido (eram caros) e não ficava com tanta vergonha de usar, porque ninguém via. Eu escondia as orelhas com os cabelos e dava para "levar". Para mim, era inadmissível que eu fosse míope (também recusava a usar óculos), usasse aparelhos de dentes ( que não era coisa comum e meus colegas implicavam) e ainda por cima, surda.

Um tempo depois adquirimos o outro aparelho e também foi custosa a adaptação. Mas desde então, uso nos dois ouvidos. E não foi fácil. Até hoje, quando vou para a rua, não aguento o barulho de carros, buzinas, ambulâncias. Tiro o aparelho na rua. Passo por "grossa" ou quem conversa comigo na rua, eu não entendo. Mas uso para trabalhar, em casa não uso e nem nos fins de semana. Só recentemente também comecei a aceitar sair na rua de óculos. E estou com 34 anos. Tenho aparelhos de dentes (novamente), óculos e os aparelhos.

Sempre fui apaixonada por música, minha família toda mexia com isso. Quando fui fazer violão, meu professor disse que eu jamais aprenderia e aquilo foi suficiente para que eu nunca mais tentasse entrar no universo da música como participante.

Após esse depoimento, você acredita que direi que essa "moda" de deficientes pedirem mais direitos é "frescura", que defendo a educação à moda antiga, certo? Errado.

Eu não entendia o que um governante do Brasil fez ao colocar cotas para deficientes em concursos. Eu não entendia o significado disso. Sempre tive dificuldades de conseguir emprego e já fui recusada em exame médico por conta da surdez. Para mim, era como se eu carregasse um segredo horrível. Até que descobri que pelas regras governamentais, me encaixo como deficiente. E isto foi estranho. Na minha visão, estava tudo ok, até mesmo porque meus pais sempre me trataram normalmente. Fiz uma prova de concurso, envergonhada, e passei. Passei por exame médico de uns seis peritos. E de repente descobri que eu tinha uma deficiência e que precisava de ajuda em determinados momentos. Orgulhosa como sou, foi difícil. Ainda é difícil.

Com o advento do facebook, comecei a ler matérias de inclusões de minorias, todo esse discurso atual. E acho maravilhoso que os jovens estejam lutando por isso. E acho maravilhoso a criação de redes de apoio.

Incluo a "Tendência Inclusiva" nesse importante papel de reconhecimento social das ditas minorias. Nesse sentido, parafraseio o grande cantor Lulu Santos: "eu vejo um novo começo de era/de gente fina e elegante e sincera/com habilidade/pra dizer mais sim do que não, não, não."



Lígia Ríspoli D'Agostini é formada em Jornalismo, tendo pós-graduações em Communication Brand e Comércio Exterior. Atualmente é estudante de Direito e autora de poesias do livro "Variáveis sobre um mesmo tema-uma viagem pela alma. É também possui surdez moderada em ambos ouvidos, tendo que usar aparelhos. Ela espera, com o Tendência Inclusiva, contar alguns casos sobre "viver na pele" a deficiência auditiva.

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