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INCENTIVO PARA LER ATÉ NO BANHEIRO


Será que os pinheiros da espécie Araucária, árvore-símbolo do Paraná, entram na composição da celulose para a fabricação do papel? Se isso for verdade, quero o copyright desta descoberta, inédita, que explicaria o apego do povo paranaense aos livros. Acabo de voltar encantada com a cultura da leitura existente em Curitiba e nas cidades próximas, onde passei uns dias de folga com a família.

Já na entrada do Aeroporto Afonso Pena, no município de São José dos Pinhais, um banner gigantesco anunciava a campanha Liberte seu Livro, em prol do desapego ao exemplar que você terminou de ler. Pelo que entendi, era dirigida a quem acabava de chegar na cidade, trazendo na mala alguns exemplares literários, escolhidos a dedo para lhe fazerem companhia durante a estada.

Na volta, portanto, o viajante era estimulado a fazer o caminho inverso, deixando para trás suas obras-primas. Tinha levado comigo Elite da Tropa e Tuareg, sendo este último um clássico, em formato de livro de bolso, para o caso de dar tempo de engatar uma segunda leitura.

Terminei de ler apenas o primeiro, que deu origem ao filme brasileiro praticamente homônimo, que estourou no país em 2006. Confesso, porém, que não tive coragem suficiente para exercer o ato do desapego. É que o exemplar, além de conter uma história empolgante e cruel, que desperta a vontade de ler sofregamente, traz uma sensível dedicatória: “Para Sandra, com fé no país que você fará”.

Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o escritor e antropólogo carioca, Luiz Eduardo Soares, durante sua participação no projeto Sempre o Papo, em Belo Horizonte. Um dos maiores pensadores da atualidade brasileira, ele ainda é capaz de manter o otimismo em relação ao Brasil do futuro.

Voltando à viagem, logo ao entrar no táxi, surge novo convite à leitura. No bolsão do banco, na parte de trás do carona, havia mais livros à disposição dos turistas, a maioria de poemas e pocket-livros. Se não me engano, vi também um exemplar de O Ateneu, mas não me interessei porque já o havia lido.

Em cada shopping de Curitiba, além das variedades encontradas nas praças de alimentação, havia gigantescas livrarias, ocupando de dois a três andares. No Pátio Batel, o mais chique deles, estava a aconchegante Livraria da Vila, que distribui sofás para os clientes se acomodarem e ficar lendo, ao longo de toda a extensão do estabelecimento. Depois de me sentir estupefata ao flagrar crianças entretidas com a leitura e casais lendo juntinhos, adquiri dois exemplares infantis e A Filha Perdida, da escritora que assina com pseudônimo de Elena Ferrante.

Mas o ápice do incentivo à literatura viria de Morretes, cidade vizinha a Curitiba e, que segundo o guia turístico, significa morros pequenos. Além de conhecer o passeio de trem e o famoso barreado, prato típico do município fronteiriço (composto basicamente de carne cozida e farinha), o visitante recebe uma inusitada convocação à leitura.

Dentro do banheiro do restaurante O Casarão, ao se abaixar no vaso sanitário para fazer xixi, é possível visualizar um miniconto, mais parecido com um causo mineiro. O papel, contendo o texto literário, vem colado ao lado da parede de azulejos, estrategicamente posicionado na altura de quem se curva para fazer as necessidades. Genial, não é?



Sandra Kiefer é jornalista há 21 anos, recebeu prêmios importantes por redigir histórias nem sempre belas, mas que precisam ser contadas para ajudar a mudar o mundo, onde ela vive com o marido e dois filhos.

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