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AUTISMO: SOBRE RÓTULOS QUE UM DIAGNÓSTICO TRAZ


Certa vez durante uma palestra que eu ministrava, uma mãe pediu o microfone e me relatou que tinha dúvidas sobre informar ou não a escola sobre a condição do filho diagnosticado com autismo.

Sim, você deve informar a escola que seu filho é autista. A escola precisa entender os desafios que estão chegando a ela, conhecer de fato cada aluno, respondi a mãe.

Logo a mãe me expôs o receio de que seu filho fosse “rotulado” no momento em que sua “condição” fosse sabida pela escola, pois ela não queria que aquele laudo, aquele pedaço de papel, norteasse a vida do seu filho.

De fato, ninguém gosta de rótulos. Rótulos nos marcam, nos quantificam, nos limitam, nos colocam em um lugar visivelmente invisível dos fracassados que ninguém quer estar.

Antes de ter este papel em mãos, que dizia “ Quadro compatível com a Síndrome de Asperger”, seguido do referido cid e algumas especificações eu tinha alguns rótulos: “retardada”, “menina esquisita”, “boboca”, “desengonçada”, “nerd” e muitos outros o tanto dolorosos que não consigo citar. Me lembro de todos estes rótulos antes de dar a minha resposta a esta mãe e cito alguns deles para a mesma quando digo a ela que aquele papel, que explicita minha condição nunca na verdade me rotulou, pelo contrário. Aquele mísero papel me libertou de tantos rótulos dolorosos e inverídicos que carreguei minha vida inteira sem nunca os tê-lo. Que na verdade o que me rotulou foi justamente a falta de conhecimento de mim mesma e dos outros sobre quem de fato eu era.

Neste momento pude responder aos questionamentos desta mãe com veemência, que não se iludisse acreditando que não apresentando seu filho como de fato era, iria impedir que ele fosse rotulado, pois ele o assim seria. Porém, seriam rótulos que não cabiam a ele, mas que os outros achariam que lhe serviria, pois não o enxergariam como de fato devessem enxergar.

Um laudo diagnóstico é apenas um pedaço de papel que serve para aqueles que o possuem possam ter suas garantias garantidas dentro de suas necessidades especiais, inclusive e, principalmente, na escola onde começamos a exercer nossa cidadania.

Hoje sei que os rótulos que me deram não eram meus. Queria ter podido me dar a chance de não acreditar neles na infância, queria que meus professores e colegas tivessem tido a chance de me compreender melhor e talvez assim nossas relações pudessem ter sido melhores aproveitadas. Isto talvez tivesse acontecido se eles soubessem que a “menina esquisita” na verdade era a menina asperger e que ela tinha um funcionamento diferente das demais pessoas. Os professores talvez se esforçassem mais... os colegas talvez se tornassem amigos... quem sabe?



Michelle Malab foi diagnosticada com Síndrome de Asperger já na fase adulta, anos após ter tido o diagnóstico de seu filho Pedro. Com o filho diagnosticado, deparando-se com a falta de tratamentos eficazes e poucos profissionais capacitados na área começou a estudar sobre a síndrome, tornando-se co-terapeuta no tratamento do filho. Durante anos de estudo passou administrar palestras sobre autismo e organizar seminários sobre o tema, trazendo os melhores métodos e tratamentos que visam dar às pessoas com autismo as ferramentas necessárias para seu desenvolvimento. Autora do livro Na Montanha Russa - Vivendo a maternidade no Autismo. É militante na luta pelos Direitos das Pessoas com Autismo e, em particular, no que se refere a inclusão escolar efetiva e humanizada. O autismo do filho acabou por lhe trazer também um conhecimento sobre si mesma.

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