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MATERNIDADE E AUTISMO: TER OU NÃO O SEGUNDO FILHO?


Ter ou não outro filho?

Esta pode parecer uma pergunta fácil para a maioria pais, mas para pais que tem um filho com alguma deficiência ela vem acompanhada da incerteza e do medo. Medo de que a genética seja implacável, medo diante das incertezas que uma nova vida traz, com gastos, responsabilidades, medo da exaustão física e emocional que nós pais, de pessoas que demandam necessidades específicas, sabemos o quanto nos custam.

Certa vez uma amiga, mãe de um menino com autismo assim como eu e que teve outro filho, me disse: Tenha outro filho. Você nunca conseguirá viver a maternidade em sua plenitude sem conhecer o outro lado.

Existe um texto muito conhecido que gosto muito, se chama Bem vindo à Holanda. Neste texto, a autora relata sua experiência de ter tido um filho com deficiência como se estivesse se programando para uma viagem de férias à Itália e o avião, por uma eventualidade, é obrigado a mudar o percurso e aterrizar na Holanda. Sim, Holanda é um país belíssimo. Assim como no texto, aprendemos a reconhecer e vislumbrar suas riquezas e belezas. A ideia central do texto não é fazer uma comparação entre os dois países, pois cada um tem suas belezas e singularidades. A questão é a mudança repentina do “percurso”. Esse texto sempre me vinha à cabeça quando pensava na possibilidade de ter outro filho.

Quando “desembarquei” na Holanda tive medo, um frio na barriga... não havia me preparado para estar naquele país, tive que refazer meus planos, guardar a mala pronta no armário e sair para compor o novo armário de acordo com o clima local. Aprendi a amar a Holanda, a apreciar sua beleza... mas a Itália... ha, a Itália! Como eu queria conhecer a Itália!

Havia a possibilidade do avião desembarcar novamente na Holanda? Sim, havia e se isso acontecesse pelo menos eu não teria que sair às compras em busca de um novas roupas para a estação, afinal o armário estava arrumado. Mas confesso que lá no fundo havia dentro de mim uma certeza insana, que muitos chamam de intuição, de que desta vez, a viagem iria seguir o curso previsto.

E seguiu... a esta viagem demos o nome de ALICE, minha doce Alice, que me fez conhecer a Itália... e como é bela LA ITÁLIA!

Conhecer dois países me fez entender e aprender com suas diferenças, aproveitar os momentos de cada estação, vislumbrar sentimentos e possibilidades únicas em cada vilarejo.

Ser mãe do Pedro foi e tem sido de uma riqueza e aprendizado imensuráveis. Pedro não veio ao mundo não apenas para me realizar como mãe, ele me trouxe alegria, lágrimas, despertou em mim faculdades que eu não supunha existir, me ensinou o significado da persistência, da dedicação. Ele me mostrou mais sobre mim mesma do que nada no mundo seria capaz de mostrar.

Alice me trouxe o lado “leve” da maternidade, pois eu podia ser apenas mãe, não precisava ser a “mãe terapeuta”. Podia brincar sem expectativa, podia deixa-la crescer mais livre. Alice, sempre atenta, olhos grandes e abertos para o mundo, nos mostrava a cada dia que veio a este plano para fazer sorrir, para encantar.

Hoje vivo o intercâmbio entre dois países, reforçando o óbvio, que dois povos de culturas diversas preservam em sua essência mais afinidades do que diferenças e que esta ultima, pela convivência diária acaba por se tornar parte de nós, fazendo com que assim possamos viajar juntos em um mesmo destino.

Às mães que me perguntam se viajar para Itália vale a pena, eu respondo que sim, vale! Mas que não se iludam, pois por mais que a destino da viagem tenha sido como o programado, a mesma incerteza quanto ao futuro quando desembarcamos na Holanda, o mesmo frio na barriga que sentimos, permanece na Itália. Afinal, filhos, com qualquer que seja a deficiência que tenham ou não, são parte de uma viagem que sabemos de onde partimos mas podemos em algum parte do caminho, sermos surpreendidos com uma mudança no percurso.

Boa viagem!


Alice, Pedro e Michelle

Acervo da Colunista

Ouça a leitura do texto acima com Viver Eficiente!



Michelle Malab foi diagnosticada com Síndrome de Asperger já na fase adulta, anos após ter tido o diagnóstico de seu filho Pedro. Com o filho diagnosticado, deparando-se com a falta de tratamentos eficazes e poucos profissionais capacitados na área começou a estudar sobre a síndrome, tornando-se co-terapeuta no tratamento do filho. Durante anos de estudo passou administrar palestras sobre autismo e organizar seminários sobre o tema, trazendo os melhores métodos e tratamentos que visam dar às pessoas com autismo as ferramentas necessárias para seu desenvolvimento. Autora do livro Na Montanha Russa - Vivendo a maternidade no Autismo. É militante na luta pelos Direitos das Pessoas com Autismo e, em particular, no que se refere a inclusão escolar efetiva e humanizada. O autismo do filho acabou por lhe trazer também um conhecimento sobre si mesma.

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