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FANATISMO RELIGIOSO, INTOLERÂNCIA E PRECONCEITO.


Me surpreende até que ponto a violência e o preconceito vêm sendo disseminados por conta do fanatismo religioso.

Não é novidade para ninguém que muito da intolerância ao que é diferente ou que foge do padrão da tal normalidade estipulada pela sociedade, em um momento ou outro, faz com que uma pessoa se torne vítima de discriminação indo ao extremo da violência psicológica e até física. Haja vista a quantidade de agressões e mortes divulgadas por não aceitação e a religião, nessa história, é mais um pretexto para justificar uma antiga tendência humana ao antagonismo entre pessoas.

E não é de hoje mesmo, pois desde o surgimento do Maniqueísmo é sabido que o pensamento maniqueísta está na base de toda a discriminação e ódio que divide as pessoas, porque parte do princípio absolutamente falso de que existem grupos que são do bem e grupos que são do mal. E, pior, cada grupo se considera do bem e considera do mal quem pensa ou é diferente dele.

Acreditando que, nos tempos atuais, usar uma cadeira de rodas não seja tão incomum, fiquei estupefata quando em uma das minhas idas a um shopping de Belo Horizonte sem a companhia de ninguém, como de forma costumeira nestes quase 26 anos de tetraplegia, fui abordada por uma senhora que, inicialmente de forma gentil, me perguntou se poderia fazer uma pergunta.

- Claro, respondi imediatamente com educação, afinal de contas muitas pessoas me perguntam sobre onde comprei minha cadeira de rodas.

No entanto, dessa vez, foi muito diferente. Esta mulher munida de uma cegueira ímpar devido a sua crença e de muita crueldade me pergunta:

- O que de tão mal você fez para que o capeta te deixasse em uma cadeira de rodas?

Fiquei estarrecida, chocada e sem ação. Realmente é difícil eu ficar sem ação mas meu susto foi imenso, tamanha agressividade da pergunta. Com um misto de sentimentos, medo e raiva, minha visão se escureceu. Tentando me desvencilhar daquela situação, a senhora segura minha cadeira aguardando a resposta àquela pergunta tão cruel.

- Eu não fiz nada! Eu agora até me questiono como Deus coloca pessoas como a senhora no mundo.

Tento fugir para o fundo da loja com medo de uma agressão física pois a mulher estava transtornada, cega pelas suas crenças de que eu era o mal em pessoa. Mas ninguém faz nada mesmo vendo minha aflição. E naquela movimentação, uma cliente segura a mulher pelo braço e a avisa que me soltasse pois chamaria o segurança. Já liberta, no fundo da loja, reajo xingando sem me lembrar do que falei. A outra cliente chega até a mim para perguntar se está tudo bem comigo e me relata que isto também já aconteceu com um amigo dela também cadeirante.

Saio da loja e vejo a mulher me observando, apenas lanço um olhar furioso e aviso: Não se aproxime, chamarei o segurança!

Não foi a primeira vez que enfrentei olhares de piedade, nem muito menos foi a primeira vez que fui deixada em um canto da sala de aula ou de estabelecimento por falta acessibilidade e despreparo da sociedade em lidar com uma pessoa com deficiência. Também já fui inúmeras vezes vítima de preconceito, intitulada incapaz e chamada de aleijada, mas foi a primeira vez que percebi o quanto é perigoso o fanatismo religioso que aterroriza e nos limita na liberdade de sermos quem somos, na liberdade de ir e vir. Afinal, fanatismo, intolerância e violência caminham juntos.



Adriana Buzelin cursou relações públicas, produção editorial e design gráfico. Modelo publicitária antes de se acidentar, hoje faz parte da agência de modelos inclusivos Kica de Castro. É a primeira mergulhadora tetraplégica mineira registrada pela HSA. Criadora e editora da Revista Digital Tendência Inclusiva, Produtora do Programa Viver Eficiente, Coordenadora da Secretaria do PV Mulher do Estado de Minas Gerais e de Direitos Humanos e Diversidade do Partido Verde de Belo Horizonte. Adriana luta pela inclusão social, pela diversidade, pelas mulheres e pela aceitação das diferenças.

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