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ATUM! ATUM! ATUM!


No começo desta semana, o meu colega de serviço estava usando um aparelho contra o bruxismo junto com a língua um pouco travada que ele tem. Nossos diálogos envolvem, em média, três repetições das falas dele. Pois é, ele estava com o aparelho, estava mesmo bem complicado. No meio do serviço, eu precisei de uma planilha e ele falou que salvou em "atum".

"Atum?!" - fiz uma cara de surpresa. Já tinha entendido que eu escutara errado.

Pedi para ele repetir, ele dizia, cada vez mais alto:

-Atum, atum, atum!

Aí ele teve que levantar e ir a minha mesa e me mostrar: era a pasta de "Rascunhos" do e-mail.

Daí falei:

- Nossa, estava ouvindo "Atum, atum"! E começamos a rir.

Por outro lado, fora o vexame, achei legal um professor agora falar grudado no microfone. Ele é agitado e gosta de caminhar, então para ele deve estar sendo difícil. Mas ele não desgruda mais do microfone. A aula dele era a que eu menos escutava e passou a ser a que mais escuto! Fiquei feliz, porque a matéria é bem difícil e não estar escutando já me deixou com medo.

Esses são alguns dessabores e delícias do cotidiano. Dá para levar a vida mais leve e, no final, ainda dá para rir. Claro, às vezes estou triste, às vezes queria estar ouvindo aquela conversa, estar no grupo interagindo, e sou obrigada a ficar calada enquanto o que mais quero é falar, falar e falar.

Por outro lado, minha mãe está sempre reclamando da barulheira dos vizinhos e simplesmente não ouço nada.

Ela sempre diz:

-Você é privilegiada e não sabe disso.

O fato triste é que existe muita poluição sonora na minha cidade e ninguém parece se importar. Se coloco aparelho na rua, só ouço buzinas e carros, um estresse danado. Se estamos em casa, sempre tem aquele vizinho que resolve bater martelo no domingão à tarde. Infelizmente, ouvir está sendo algo penoso, e por isso minha mãe fala que sou "privilegiada". Mas não é privilégio meu. É a poluição sonora que anda terrível, mas ninguém parece se importar.



Lígia Ríspoli D'Agostini é formada em Jornalismo, tendo pós-graduações em Communication Brand e Comércio Exterior. Atualmente é estudante de Direito e autora de poesias do livro "Variáveis sobre um mesmo tema-uma viagem pela alma. É também possui surdez moderada em ambos ouvidos, tendo que usar aparelhos. Ela espera, com o Tendência Inclusiva, contar alguns casos sobre "viver na pele" a deficiência auditiva.

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