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RELATO DE MÃE: MINHA REALIDADE É AZUL!


Quando assisti ao filme “Meu filho, meu mundo” eu tinha 13 anos e me lembro de ficar triste com a história do menininho loiro que era autista (Síndrome de Asperger).

Naquela época, meninas desta idade brincavam de boneca. Em seus sonhos, os filhos eram sempre perfeitos; elas não sabiam fazer de conta que seu filhinho era um menino Down, cego, cadeirante ou autista.

Menina brincava de levar seu boneco ao médico. Mas ninguém brincava de ir ao médico para ouvir que seu filhinho não seria como as outras crianças, que, apesar de aparentemente saudável, teria dificuldades sociais, comportamentais e de comunicação.

Menina brincava de escolinha.

Mas ninguém brincava de ouvir a professora dizer que seu filhinho não acompanhava as outras crianças, que ele deveria ficar em casa em dia de reunião de pais, pois nem todos aceitavam uma criança como ele. Que as avaliações seriam adaptadas à capacidade dele, que alguns professores seriam parceiros enquanto outros não se importariam. Que na classe, muitas vezes, ele seria motivo de brincadeira, mas que, na sua pureza de sua alma, não entenderia.

Menina brincava de convidar seu amiguinho para brincar em casa.

E você esperava que fizessem o mesmo a ele, ou, no mínimo, que os amigos viessem, mas eles davam uma desculpa e não apareciam.

No nosso mundo de infância não há espaço para preconceito. Tudo é colorido, tudo é lindo, tudo é sonho e todos são felizes para sempre.

Tornei-me adulta e ganhei dois filhinhos de verdade, Rafael e Matheus.


Mateus, Rosana e Rafael

Rafael hoje tem 20 anos, faz Comunicação Social na Belas Artes. Mora sozinho em São Paulo, tem muitos amigos. É independente, autônomo. Rafael é meu boneco de sonho de infância de menina. Todo perfeito!

E Matheus?

Matheus é meu boneco de realidade. Lindo e loiro como um anjo azul. E como o menininho, autista. Azul como a cor do autismo por ter maior incidência em meninos.


Rosana e Mateus

Foram nove anos de uma busca para descobrir estas palavras: Síndrome de Asperger. Elas me trouxeram uma nova realidade, no entanto, de forma positiva.

Foram muitas consultas, exames, especialistas, dúvidas, lágrimas. Agora nós sabíamos, podíamos ler a respeito, nos informar, direcionar tratamentos, entender. Mas também ajudar, compartilhar, doar, consolar.

Por enquanto, Matheus tem 17 anos, e é estudante incluso da segunda série do Ensino Médio, no Colégio Sagrado Coração de Jesus. É esforçado, dedicado, empenhado. Eu me orgulho e muito! Porque, para ele, nada é simples, nada é fácil.

Matheus é sozinho, perambula pelo pátio no recreio. Seu celular não toca, seu e-mail fica vazio, ninguém curte ou compartilha seus posts do Facebook. No dia de passeio, é o último a entrar no ônibus e vai sempre ao lado do coordenador, não vai ao shopping às sextas-feiras. Tem apenas uma amiga muito especial, de um coração maior que o mundo, Jéssica. Sem ela, ele nunca teria feito um trabalho em grupo, o que aconteceu apenas na 8ª série.

Matheus suporta, aguenta, sofre. E, por ele, suporto, aguento, sofro em dobro.

Ele nos dá lições preciosas de superação, obstinação, força. Tira de nós o melhor de cada um. Nos ensina a ser humilde, tolerante, persistente e paciente. Sou muito grata a ele por isso. Muitas vezes não me considero merecedora da sua grandeza.


Mateus desfilando moda inclusiva

Todas as alegrias e conquistas são ampliadas ao extremo. A mais simples tarefa, muitas vezes, vem permeada de sentimentos somente permitidos a pais especiais que dão uma dimensão e significado diferentes.

Ele luta diariamente num mundo onde alguns conceitos, como o sarcasmo, a ironia, a maldade e desprezo existem, mas não são compreendidos por ele. Ele é único e especial. É carinhoso, aperta as pessoas em abraços calorosos e tem um tom de voz que faz achar que está bravo.

Por ele, tento fazer do faz de conta de menina, da sua imperfeita, a mais perfeita realidade, mesmo que, para isso, tenha de reinventá-la todos os dias.

Com relação ao seu futuro, vamos viver um dia de cada vez.

E, com certeza, ele nos surpreenderá, como sempre fez.

Ser mãe do Rafa e do Matheus é meu melhor presente.

Rosana Leh Dias

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