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"VOCÊ SÓ ESCUTA O QUE QUER"



Verdade. Sempre ouvi essa, especialmente em ambiente familiar. As pessoas escutam as coisas a contra-gosto. Estão dormindo e podem, inclusive, serem acordadas por ruídos. É involuntário. Eu, para escutar, tenho que me levantar, me postar diante da pessoa e ler os lábios dela, exige concentração. E, claro, ninguém tem paciência para fazer isso o tempo todo. Então, sim. Só escuto quando quero. Quando acho que merece o esforço todo ou não estou muito cansada. Porque cansada, não escuto. Fico completamente distraída. E por isso que no trabalho e nos estudos, meu esforço é dobrado. Enquanto meus colegas podem mexer no celular e escutar, não posso me dar a esse luxo. Tenho que ficar com o olhar fixo nos lábios dos professores. Consequentemente, meu cansaço é dobrado. Agora, você imagine: você está deitada no sofá, descansando e alguém da sua família está falando do outro lado da casa. Eu escuto o tom da voz, às vezes o que já me ajuda a descobrir se é lamentação, reclamação, xingamento ou sei lá o que mais, que acho que não vale o esforço.


Imagina você conviver com um colega de trabalho que só reclama da vida. Você faz esse esforço todo e a pessoa está lá só enchendo o saco. Então não esforço mais. Sei que daquela pessoa, não posso esperar muito em questão de falatório. Então ignoro completamente. Mas... entrou aquela pessoa super legal, que emana energia positiva. Você não sabe o que ela vai falar. Mas você já se prepara. Aí as pessoas reclamam que sou extremamente seletiva. Claro que sou! Por questão de sobrevivência, senão enlouqueço.


Uso as próteses auditivas para trabalhar. O barulho do ar condicionado, para mim, está na mesma altura que as conversas, que o martelo batendo, que tudo. Minha cabeça está o hospício nessas horas. Por isso, tenho necessidade de chegar em casa, tirar os aparelhos e descansar um pouco de alívio. Fechar os olhos e sentir prazer com o silêncio. Eu preciso de silêncio alguma hora do meu dia. Inclusive, porque, muitas vezes, estou morrendo de dor de cabeça. Então, é verdade: só escuto o que quero. Mas não por luxo. Para sobreviver.


Você quer ser ouvido por mim? Experimente você a fazer o esforço: levante-se, poste na minha frente e fale pausadamente. Preguiça, né? Essa é minha rotina diária.







Lígia Ríspoli D'Agostini é formada em jornalismo, especialista em Communication Brand e Comércio Exterior. Estudante de Direito. Poeta, com livro publicado pela Editora Chiado e blogueira quando sobra algum tempo. Além de tudo, possuí perda auditiva. Como tudo na vida de pessoas especiais e diferentes, lutar e resistir é um ato diário!

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