• Tendência Inclusiva

O LÚDICO NO AUTISMO

Autistas têm imaginação e senso de humor. O lúdico está presente na vida dos autistas e é tão crucial para o nosso desenvolvimento quanto é para o de qualquer outra pessoa.


Em entrevista para o meu mais recente livro, “Neurodivergentes – Autismo na Contemporaneidade”, a professora de psicologia da UFMG Maria Luísa Nogueira é enfática: a literatura científica indica que é possível que autistas desenvolvam tais habilidades. Porém, para isto, é necessário um “passo a passo” de outras competências, do concreto para o abstrato.


Para muitos, a ludicidade é algo somente ligado a crianças. Tal afirmação evidencia falha conceitual. Afinal, lúdico é tudo aquilo “que se faz por gosto, sem outro objetivo que o próprio prazer de fazê-lo”. É aquele momento gostoso no dia a dia entre pais e filhos -- para o qual não se precisa criar um evento -- em que uma simples “brincadeirinha” confere leveza e bom humor ao cotidiano.


Foi isso que colaborou com a relação que tenho com a minha mãe, a jornalista e escritora Selma Sueli Silva, também autista. A minha adolescência foi a nossa pior fase juntos. Nem por isso deixamos de nos divertir e de brincar. Por pior que fosse a crise, ou por mais difícil que fosse a situação com a qual teríamos que lidar, nós sempre fazíamos uma piada. Nosso humor era peculiar e só nós dois éramos capazes de compreendê-lo. Mais tarde, aprendemos que essas brincadeiras poderiam ser inadequadas em alguns meios sociais.


Por sermos autistas com diagnóstico tardio, não tivemos as intervenções necessárias que facilitassem a nossa participação em jogos convencionais. Os competitivos, em especial, eram um desafio para o baixo limiar de frustração. Hoje, mais maduros, às vezes nos arriscamos e percebermos o quanto esses jogos desenvolvem habilidades em crianças e adultos, do raciocínio lógico a uma maior possibilidade de interação, mesmo que para realizá-los não haja outro objetivo que não seja a diversão.


A questão é: Como acessar o lado divertido do autista, que muitos ignoram, por não conseguirem percebê-lo? Foi o que eu e a minha mãe fizemos empiricamente, e que a entrevista com a pesquisadora Maria Luísa Nogueira veio para reforçar: jamais supor que a pessoa autista não compreende o que está acontecendo ao redor, e fazer emergir, desde cedo, os chamados “jogos de faz de conta”. Garanto que vai ter muita gente grande querendo entrar na brincadeira.






Link para compra do livro “Neurodivergentes”: https://pag.ae/7UvmuWwga





Victor Mendonça é jornalista, apresentador, youtuber e autor dos livros "Outro Olhar", "Danielle, Asperger", "Neurodivergentes" e coautor de "Dez Anos Depois." Foi diagnosticado com TEA aos 11 anos. Mantém o portal "Mundo Asperger".

© Copyright Tendência Inclusiva  2014 / 2020