Rogélia Heriberta e o Olhar Inclusivo

por Adriana Buzelin

Multitalentosa, árbitra do Rugby em cadeira de rodas, voltada para a causa da  inclusão e dotada de muito talento, Rogélia leva sua Art Inclusiva aos galpões de exposição e revela o quanto de beleza há no universo de pessoas com deficiência.

Como surgiu a arte inclusiva em sua vida?

 

Art Inclusiva é o nome que uniu tudo que já fazia com o mais novo projeto artístico. Eu sou professora há alguns anos e de artes desde 2010 em Brasília. Em minhas turmas realizávamos eventos avaliativos artísticos e sociais a cada final de ano. Desenvolvia com meus alunos da rede pública artes cênicas, plásticas, dança e música. Era na rua que apresentávamos os espetáculos com o meu outro projeto chamadi Dia de Skate Solidário, que nasceu pela luta do meu filho Lehi Leite, hoje atleta mundial, em ser um grande skatista. Porém o que ninguém entendia era o que nos motivava, pois o que desejávamos incluir em nossos trabalhos era o meu outro filho mais velho,  Spencer Leite, que possuí uma doença mental e intelectual. Tudo que fazíamos era um ajudando o outro. Nunca conseguimos incluir Spencer, por mais que participássemos de outros projetos, pois a lei possui lacunas e o doente mental, ainda que com deficiência intelectual, não possui amparo como a pessoa com autismo. 

 

Meu contrato na rede pública era de dois anos depois sai para dar aula em rede particular.  Em 2013 conheci o Rugby na ânsia de aprender sobre a deficiência, ser voluntária, inclui-los em meus projetos e dessa forma consegui dar o nome exato a arte que vislumbrava: Art Inclusiva Rogélia Heriberta.

 

Quais são as técnicas que você usa?

 

Sou apaixonada pela sustentabilidade e gosto de misturar as técnicas com um pouco de tudo, pois precisamos defender o meio ambiente, então tenho telas normais, mas produzo outras com tecidos usados, faço molduras com papelão ou qualquer sucata, utilizo argila pra esculturas, cerâmica fria e também papietagem. Gosto do realismo, mas minha real paixão é pelo surrealismo, arte contemporânea, instalação. Amo ter tempo para essa produção que demora um pouco mais que fazer uma arte realista. Requer tempo para a secagem das tintas e do processo de criação em si.

 

Qual sua formação?

 

Sou formada em artes cênicas pela Faculdades de Artes Dulcina de Moares desde 2010, hoje com o grupo Trupe Três ou Mais, contudo sou autodidata nas artes plásticas. Desde a infância, com grande incentivo do meu tio escritor José Ferreira Simões,  publicou em seus livros muitos dos meus desenhos. Na dança, fui dançarina de bandas de Brasília e produtora musical por um curto espaço de tempo de 4 anos.   

 

Em qual aspecto você está inserida na equipe de Rubgy de Brasília?

 

Quando conheci o Rugby em Brasília em 2013, só havia um time Associação Esportiva e Cultural Brasilia Quad Rugby. Eles ansiavam pela formação de novos atletas e Paulo Higino, técnico da época, decidiu com os atletas procurar um local e algumas cadeiras para incentivar novos tetraplégicos ou paraplégicos jogarem rugby. Vendo que havia pouco inventivo e verba, decidi unir minha arte a eles a fim de apoia-los mesmo que fosse divulgando ou financeiramente sedendo parte da verba do meu trabalho ao esporte. Cresceríamos juntos nesse processo.

 

Me empolguei, divulguei, fiz o blog, um grupo com minhas fotos e vídeos realizados com eles, contei as histórias de muitos dos atletas do rugby, não só de Brasília como do Brasil com a arte. Depois notei que estava muito apaixonada pelo esporte e que era algo que me movia além da arte, e assim que soube que haveria um curso de arbitragem  fiz e pretendo ser ainda uma grande árbitra. Pra isso preciso ir a competições, investir para crescer e conviver com bons árbitros paralímpicos pelo Brasil. Após um ano de voluntariado, nesse novo grupo de atletas rugby CETEFE/Bsb, decidi conhecer novos esportes paralímpicos até por uma questão de justiça com a Art Inclusiva que deseja incluir a todos, sejam quais forem suas causas esportivas, sociais, raças, etnias. Durante este um ano  não foi possível ajudá-los tanto quanto eu queria financeiramente, mas o pouco que foi  feito, foi significativo muito mais pra mim do que para qualquer outra pessoa. Fui muito criticada pelo amor extremo ao esporte, por só ver coisas bonitas e esqueci de que havia pessoas que viam tudo isto como algo ruim.

 

Quando fiz a primeira tela encomendada estava desempregada e não podia trabalhar por que minha mãe estava com câncer de mama. Queria estar com ela todo instante que pudesse... Bem, a verdade é que não tinha dinheiro, mas tinha um material que poderia realizar a obra que envolvia o grande amor de uma amiga deficiente física a Fram por seus amigos, e o meu por ela. A obra se chama, "O Amigo que a Vida nos Dá de Presente". Fiz a obra, a moldura, e tudo que recebi doei a um atleta que precisava de uma cadeira. O pouco que consegui arrecadar das obras doei a eles e algo insignificativo comprei novos materiais. Amo o rugby e sou grata a todos por tudo que fizerem por mim. Eles foram muito importantes quando minha mãe se recuperava e a arte também. Era o que me sustentava junto a novos amigos que a arte foi me trazendo como Alexandre Cremasco (Atleta Handebol), Scott Rains (Turismo Inclusivo) e o projeto Fashion Inclusivo, depois veio Adriana Buzelin (Modelo e Colunista) , Samanta Bullock (Modelo), Paulo Santos (ex-técnico rugby). Assim vi que não estava só, que podia crescer com meus amigos nessa inclusão, nesse sonho, nessa luta e vencer.

Como o Fashion Inclusivo surgiu em sua vida?

 

As pessoas viam que eu fotografava a história do Rugby e uma pessoa me convidou para fazer umas imagens com um desfile de crianças e adultos deficientes. Como tudo, não os larguei mais. Era uma satisfação fotografá-los. Recebia sorrisos sinceros e abraços verdadeiros e isso era o prêmio. Acho que ficamos juntos quase o mesmo tempo que fiquei no Rugby, no entanto, só agora entrando para 2015 formalizamos uma parceria Art Inclusiva com Fashion Inclusivo afim de nos apoiamos mutuamente.  E falando sobre parcerias, Scott Rans é uma parceria que prezo muito. Desejamos mostrar que PcD tem uma vida “normal” e pode viver como todo o mundo, além de questões sociais, de acessibilidade que a arte possa mostrar, defendendo e censurando atitudes que não dignifiquem a inclusão.

 

 

Sobre os retratos inclusivos que faz, qual objetivo a ser abordado com eles?

 

O objetivo do projeto sempre foi mostrar para o Brasil e para  mundo pessoas que mudaram a si mesmas, a outrem pela inclusão, sejam elas famosas ou não. Embora tenha um bom acervo de atletas paralímpicos e a maioria do rugby, desejo falar de qualquer pessoa, grupo que idealize, que realize projetos de inclusão social. O mundo precisa de mais consciência humana, de valorizar as diferenças, pois são elas que nos agregam conhecimento, tradição, cultura. Respeito é saber e viver de modo a incluir o que já está incluído a partir da vida. Estamos vivos e já somos parte do todo indissociável.     

 

Me fale de suas exposições e seus futuros projetos?

 

As exposições foram fundamentais, foram em competição de RUGBY, após SESC, FUNARTE, CETEFE, e IFB - DF. Embora tenha sido regional ela alçou todo Brasil e alguns países em menos de um ano como Art Inclusiva. Agora seguirá com o Fashion Inclusivo em alguns de seus desfiles, Federações esportivas, por envolver esportes olímpicos e paralímpicos em apoio a eles, há previsão para o Museu da República em Brasília, SESC e outros. Estou retornando ao Dia de Skate Solidário onde realizava campeonatos em apoio as atletas e inscrição sendo roupas e alimentos doados a instituições de caridade agregando a Art Inclusiva que já existia, mas que agora temos um nome. Há uma grande surpresa para este momento inclusivo de tantas diversidades.

Exposição Olhar Inclusivo na Funarte - Brasília - DF

Quem é Rogélia Heriberta e qual recado você deixa para os leitores da Tendência Inclusiva? 

 

Rogélia Heriberta é filha de Darcy Terezinha de Jesus, neta de Maria Luíza, minhas heroínas, sou mãe de três guerreiros Spencer Leite (deficiente e modelo fotográfico), meu orgulho, meu tudo; Lehi Leite (Skatista), o meu maior exemplo de viva, o amor da minha vida; Rogélio Leite ("O Menino Voador" - Vencedor da morte várias vezes), meu pequeno príncipe, meu lindo amor. Sou isso, e todo resto foi Deus quem me deu com a vida, com os dons. Ele é o meu maior exemplo de caridade, de lealdade, de tudo.

 

Para os leitores e amigos do Tendência Inclusiva, deixo o meu amor e amizade sincera dizendo que estamos juntos na alegria e tristeza, pois somos uma família pela inclusão social. Agradeço o privilégio imenso de poder fazer parte dessa história tão genuinamente inclusiva, uma verdadeira Tendência Inclusiva... 

Rogélia e seu filho mais velho Spencer Leite - Modelo fotográfico.

Rogélia e Vó Luiza - Maria Luiza de Jesus Simões, atualmente com 97 anos.

Rogélia e Lehi Leite, o filho do meio, skatista Amador Mundial.

 

"Esse é o caçula - Essa foto é significativa, foi quando meus colegas de faculdade fizeram uma matéria com ele no Correio Braziliense para arrecadarmos dinheiro no intuito de pagar seu tratamento de vista. Ele tem ceratocone e o médico disse que ele ficaria cego, mas está ai vendo tudo, ele também caiu do 5° andar aos 4 anos e sobreviveu ileso, sua matéria foi p o mundo todo por meio do Jornal Hoje e se chamou o Menino Voador" -  conta Rogélia

Rogélia e Rogélio Leite

Confira mais trabalhos inclusivos de Rogélia Heriberta em seu blog: http://artrogeliaheriberta.blogspot.com.br/

 

Contato: https://www.facebook.com/www.artrogeliaheribertaart

 

Fotos: Acervo Pessoal da Artista

 

por Adriana Buzelin em 15/12/14

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