Silvana Louro

por Adriana Buzelin

Comprometida com a inclusão social através da moda, Silvana Louro é uma mulher empreendedora, criadora da Equal Moda Inclusiva, grife que desenvolve roupas adaptadas para pessoas com deficiência, atendendo um público com particularidades diversas sem segregar e sem deixar de lado o respeito pelo meio ambiente em todas suas coleções. 

Silvana Louro

Desde quando surgiu a Equal Moda Inclusiva e como você começou a trabalhar com moda? 

 

A Equal nasceu em dezembro de 2013, após quase 3 anos de pesquisa. Sempre trabalhei com Moda. Primeiro como modelo e depois como produtora de catálogos, desfiles e na formação de modelos também.  Coordenei a Maison Monique Evans, os Cursos de Moda do Senac Rio e tive minha própria Escola de Modelos por 8 anos em parceria com a agência Elite Models. 

 

Ministrei aulas na InterModel Lagoa, da Carla Souza Lima e Milla Moreira. Além dos Workshops com Sérgio Mattos da Agência 40 Graus. Enfim, em tudo que existia nessa área nos anos 80 e 90, eu estava presente. Formei mais de 3 mil profissionais por todo país. Nomes como Suzana Werner, Raica Oliveira, Nivea Stellman, Monica Carvalho, Vanessa Pascale, dentre outras inúmeras meninas e rapazes passaram pelas minhas aulas.

 

 

Quais as dificuldades que encontrou no começo? Indo desde as barreiras em colocar a marca no mercado de consumo a adaptá-la a necessidades de pessoas com tantas particularidades diferentes? 

 

Em 2011 ninguém falava de Moda Inclusiva. Não se sabia o que era, nem as próprias PcDs. A minha primeira coleção em 2013, foi 100% adaptada e o aprendizado começou aí.  Apesar de conhecer muitas pessoas do meio da moda, não foi fácil desenvolver minhas roupas. Os modelistas achavam os croquis estranhos, difíceis de fazer.  Demorou para aparecerem os profissionais certos, com brilho nos olhos para o projeto. Continuo com a mesma equipe até hoje, com muita satisfação.

 

Antes de abrir a Equal eu já estava mergulhada nas pesquisas, frequentando as Instituições, conversando com pessoas com deficiências e seus familiares. A ANDEF me apoiou desde o inicio. Meu primeiro questionário de campo foi o presidente Guilherme Ramalho (em memória) e a dra Tania Rodrigues, idealizadora da ANDEF que responderam. 

 

Procurei a assessoria do Sebrae RJ para ter orientação de especialistas no mercado.  Com a orientação deles passei a adaptar metade das peças para pessoas com deficiência e produzir a outra metade sem adaptação, para pessoas sem deficiência. Foi a solução certa para manter o giro da marca, me mantendo no mercado, até que as roupas com adaptações fossem devidamente divulgadas e assim, comercializadas. Além de somar ao conceito a verdadeira inclusão: Pessoas com e sem deficiência juntas. Ninguém quer ficar separado em um gueto. 

 

Durante todo processo tive a assessoria do fisioterapeuta Fernando Mello. 

 

Quanto às particularidades de cada tipo de deficiência, eu foquei no início apenas nos cadeirantes, pessoas que não ficassem de pé. Continuo até hoje, somando outras possibilidades, como os PCs (paralisados cerebrais), os visuais e estou produzindo roupas assimétricas para amputados.

 

Gostaria muito de fazer mais. As pessoas com nanismo por exemplo, tenho muitos amigos que não encontram roupas, sapatos e acessórios adaptados para `as suas necessidades.  As pessoas com SD (Síndrome de Down), alegres e amorosos, os autistas com muita sensibilidade. Temos um campo vasto para pesquisas e ações. 

 

Estou aprendendo libras e já domino um pouco o braille. Cada tipo de deficiência é um novo e amplo universo e eu me interesso por todos. 

"Quanto às particularidades de cada tipo de deficiência, eu foquei no início apenas nos cadeirantes, pessoas que não ficassem de pé. Continuo até hoje, somando outras possibilidades... Cada tipo de deficiência é um novo e amplo universo e eu me interesso por todos."

Modelo: Natache Iamayá   - Foto: Renato Moreth 

Look: Saidinha de praia com capuz e zíper frontal.

Quais os critérios para escolha dos tecidos e modelagens em suas coleções? 

Eu só trabalho com malha. E malha de tecelagens que tenham consciência ecológica.  Trabalhar com malha não é restritivo. Existem muitas opções: Malha Piquet, Malha Creponi, Malha Viscose, Malha de Algodão. Muitas possibilidades. Além do conforto que é prioridade, a malha não produz pressão no corpo.

 

Como você enxerga o consumidor da Equal Moda Inclusiva e quais os pontos positivos para o consumidor em ter uma roupa adaptada? 

Nossas consumidoras são mulheres que têm uma vida ativa e vaidosas. Estudam e trabalham, precisando estar lindas da manhã até a noite. Elas gostam de conforto e design, são fiéis e interagem muito comigo pelas redes sociais. Eu as identifico como pessoas que estão se descobrindo no universo das roupas adaptadas, com muita empolgação. E com isso, se sentindo empoderadas. O que me deixa muito feliz.

Os pontos positivos de uma roupa adaptada são primeiramente o conforto e a autonomia: as aberturas laterais das peças de baixo (calças, bermudas e saias) ajudam cadeirantes se vestirem e agilizam a ida ao banheiro, por exemplo. São muitos pequenos detalhes que existem para não se machucar e para liberar as zonas de pressão do corpo.  

As costuras e detalhes são pensados para atender `as diferentes especificidades, de cada tipo de deficiência. 

 

Existem no mercado roupas adaptadas para grávidas, para bebês, para tamanhos que antes não existiam, os GG e extra G ou mais, além de diferentes tribos: skaters, surfistas, rappers, ciclistas etc. Todas essas adaptações e estilos visam atender uma demanda segmentada. 

 

Nós, estilistas, estamos atentos ao comportamento e ao que acontece no mundo, porque Moda é se expressar, viver bem, se sentir representado na sociedade e no mundo.

 

A pessoa com deficiência está descobrindo isso agora. Historicamente falando, a sociedade sempre os isolou.  O bom é que hoje as pessoas com deficiência estão se colocando, se mostrando nas redes sociais, com seus seus corpos do jeito que eles são, comunicando as soluções que elas encontram para conseguirem se vestir e serem inseridas.

 

Esse alerta das suas dificuldades é um fio para se seguir...  pessoas com nanismo por exemplo, tem dificuldades diferentes das que usam cadeiras de rodas. Então, as adaptações são necessárias e fazem diferença na vida dessas pessoas.

Modelo: Natache Iamayá   - Foto: Renato Moreth  Look: Vestido de neoprene em estampa marítima, adaptado com modelagem acompanhando o design da cadeira e abertura com zíperes nos ombros.

Modelo: Danielle Fernandes - Foto: Luiza da Matta 

Look: Saia Adaptada na cor branca, com zíper frontal, acompanhando o design da cadeira, cropped branco sem adaptação e colar Sobral Design

Sabemos que o mercado ainda é muito restrito  e o acesso as roupas ainda é uma dificuldade, como você disponibiliza suas peças? O preço para o consumidor final é atrativo?

Sou uma otimista nata. Encaro as dificuldades focando no positivo e isso me impulsiona. Acredito de verdade no meu trabalho e no segmento inclusivo.

 

Não vejo o mercado restrito. Vejo o mercado em franca expansão e com muitas possibilidades. 

 

O acesso às roupas é uma dificuldade para quem não está acostumado a comprar pela internet. Os grandes MarketPlaces já construíram um mercado sólido. Existe uma tabela de tamanhos que viabiliza a compra facilmente.  O que pode dificultar a venda pode ser a falta de hábito das pessoas com deficiência comprarem peças adaptadas. É tudo muito novo acontecendo junto. É um processo. 

 

É preciso "educar" o público falando, comunicando, mostrando imagens para as pessoas entenderem a proposta. A mídia ajuda demais. Precisamos de espaço para expandir o conceito e agradeço muito e sempre todo interesse da mídia.

 

Trabalhamos pelo e-commerce e o preço é um investimento alinhado ao que acreditamos: o slow fashion. Não produzimos um montão de roupas, nem estimulamos o consumo desenfreado, que produz mais lixo para o nosso planeta. Fazemos questão de acompanhar todo processo da produção das peças e conversar com as costureiras sobre seus salários e a qualidade das suas vidas. Conheço todas pelos nomes.

 

Nossas peças sempre terão qualidade e acabamentos impecáveis, refletindo em um investimento justo. Roupa é um investimento e a compra deve ser feita com consciência. Acreditamos em prosperidade compartilhada e no sucesso apenas se todos estiverem ganhando. 

 

Não é a toa que fazemos parte do seleto grupo apoiado pelo Sebrae Moda Sustentável.

"Não produzimos um montão de roupas, nem estimulamos o consumo desenfreado, que produz mais lixo para o nosso planeta. Fazemos questão de acompanhar todo processo da produção das peças e conversar com as costureiras sobre seus salários e a qualidade das suas vidas. Conheço todas pelos nomes."

Quais são as adaptações mais usadas na marca? Todas as peças têm etiquetas em braille? 

As principais adaptações são as aberturas estratégicas e a exclusiva modelagem que acompanha o design da cadeira, para quem não se levanta (em processo de patente). Existem outras adaptações também e vivo estudando, observando e principalmente conversando com as pessoas com deficiência e seus familiares. Porque eu não sei nada, não tenho nenhuma deficiência, então preciso ouvir deles, pois nos menores detalhes do dia a dia, estão as grandes chaves para as adaptações. 

 

Antes de produzir mais etiquetas em braille, que estão muito caras, estamos estudando as possibilidades do QR Code. A Isa Meirelles tem me ajudado muito nessa pesquisa. Acredito que o QR Code seja o futuro das etiquetas em braille.

 

Quais são as suas referências na moda inclusiva?  E como você define a história de moda inclusiva no Brasil?

 

 

Cito sempre como referência a estilista Tenbo. Gosto muito da moda japonesa, sinto um frescor e uma jovialidade nas composições, normalmente difíceis de ver.

 

Sabe aquelas placas que colocam em obras: "EM CONSTRUÇÃO", com um cenário cheio de tijolos, montes de cimento e fundações sendo preparadas para levantar um prédio? Assim defino a moda inclusiva no Brasil. Estamos em construção, mas estamos trabalhando para crescer mais e mais.

 

Qual mensagem você deixa para os leitores da revista digital Tendência Inclusiva?

 

Eu Silvana Louro, Heloisa Rocha, Vitória Cuervo, Isa Meireles e Camila Bueno, montamos um Coletivo Inclusivo com 5 mulheres  chamado "Quem São Elas?".  Buscamos possibilidades e desdobramentos que tornem a Moda e a Comunicação mais democráticas e inclusivas. Estamos comprometidas e acreditamos que juntas somos mais fortes. 

 

Precisamos de apoio e divulgação. Não só coletiva como individualmente. Quanto mais curtidas e seguidas, mais fortes seremos.

 

Convido, então, vocês a nos seguirem no Instagram e no Facebook: Coletivo Quem São Elas e também a curtirem e seguirem a Equal Moda Inclusiva no Instagram e Facebook.

Sitewww.equalmodainclusiva.com.br

Instagram: www.instagram.com/equalmodainclusiva

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Linkedin: Silvana Louro

Adriana Buzelin é criadora e editora da Tendência Inclusiva, Colunista da Revista Reação e Produtora do Programa Viver Eficiente. Se tornou a primeira Mergulhadora Adaptada através da HSA de seu estado, escultora diplomada por honra ao mérito com sua obra denominada Favela, retomou sua carreira de modelo fazendo parte do casting da Agência Kica de Castro, após um acidente automobilístico que a deixou tetraplégica. Secretária Estadual da Mulher do Partido Verde de Minas Gerais, Secretária Municipal de Direitos Humanos e Diversidade de Belo Horizonte e foi a primeira mulher com deficiência a concorrer ao cargo de vice-governadora do estado de Minas Gerais em 2018. Amante das artes e dos animais, luta pela inclusão social, pelos direitos das pessoas com deficiência, mulheres e idosos.

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